por Luiza Fagá e Thiago Rosenberg, 19 de julho de 2006
Professor emérito da Universidade Paris 8, Edmond Couchot ministrou a palestra de abertura do Simpósio Emoção Art.ficial 3.0, que ocorreu na noite de 19 de julho. “Um artista, um cientista, um teórico, um professor, Couchot é tudo isso”, definiu André Vallias, moderador do encontro. “Ele é a encarnação de um homem renascentista no século 21.”
Emoção e inteligência
Um dos pontos enfatizados por Couchot foi a importância da simulação de emoções humanas em máquinas. A questão soa paradoxal, já que as emoções, tidas como características irracionais do ser humano, podem parecer desimportantes para a ciência. Mas Couchot apresentou dois argumentos que justificam a validade de pesquisas nessa área.
O primeiro tem caráter científico. Segundo ele, estudos comprovam forte ligação entre inteligência e emoção. Simular emoções, portanto, seria necessário para o desenvolvimento de inteligência artificial. “A questão não é se as máquinas podem ou não ter emoções”, disse. “A questão é se elas podem ser inteligentes sem emoção.” Apesar disso, Couchot lembrou que a capacidade de reconhecer e simular emoções não significa que as máquinas as sintam ou experimentem. A emoção artificial não dá a elas inteligência superior, ou seja, consciência da consciência.
A segunda razão apresentada por Couchot é prática. A simulação de emoções facilitaria a comunicação entre homem e máquina. Por um lado, o computador, ao ter a capacidade de reconhecer emoções dos usuários, poderia se adaptar e otimizar sua performance, mudando de comportamento ao notar insatisfação do usuário ou repetindo ações que o agradassem.
Por outro lado, a capacidade de simular tais emoções faria com que máquinas fossem vistas como nossos semelhantes, facilitando o diálogo homem/máquina. “A autonomia do comportamento e a simulação das emoções manifestadas pelos artefatos virtuais provoca no ‘interator’ um forte sentimento de empatia”, afirmou Couchot.
Arte e autoria
A arte cibernética, no entanto, muitas vezes tenta perturbar essa comunicação, evidenciando a presença de um autor. Nesse aspecto, o professor citou como exemplo a obra Portraits, de Joseph Nechvatal, na qual o retrato do observador sofre constantes alterações.
Mas a noção de autoria também é relativizada em tal produção artística, já que o espectador, além de interagir com as obras, ajuda a criá-las. Modifica-se o estatuto do artista – que não quer que seu trabalho seja inteiramente acabado –, do espectador – que se torna co-autor – e da própria obra, agora com certo grau de autonomia. Um processo visto com satisfação por Couchot, mas também apontado como um dos responsáveis pela relutância de se reconhecer o valor artístico desses trabalhos e a conseqüente dificuldade de inserção no mercado.
Criador e criatura
Durante a palestra, Couchot afirmou ainda que “a tecnologia serviria ao homem como meio de liberação de seus processos internos”, da mesma forma que no passado ferramentas como o martelo, por exemplo, possibilitaram a liberação da mão. “Mas é possível que todos os processos internos possam se exteriorizar?”, questionou.
À medida que esse processo de exteriorização ocorre, a máquina fica mais parecida conosco. Sobre isso, Couchot disse que o homem, por vezes, assume o papel de “deus ciumento” por não querer dar liberdade à sua própria criação e apontou uma contradição nessa atitude: o objetivo desses trabalhos é dar às máquinas características humanas e uma de nossas principais características é a autonomia.
O professor disse acreditar que não devemos temer sermos superados por nossas criaturas. A inteligência, segundo ele, não existe em si, mas sim em forma de manifestação ou por meio de um suporte. Seria impossível, portanto, a reprodução da inteligência humana em objetos inanimados. As máquinas possuem, por enquanto, apenas uma “faísca de inteligência e um esboço de emoção”. Além disso, se o homem procura a reprodução perfeita de outro ser humano, há já – e sempre houve – formas mais práticas de conseguir tal resultado.
Conheça La Plume et le Pissenlit, obra de Edmond Couchot que movimenta dentes-de-leão virtuais a partir da interação com o público.