Simpósio 2004

São Paulo, 2 a 5 de Julho de 2004

Simpósio internacional, que integrou o evento Emoção Art.ficial 2.0 – Divergências Tecnológicas. Especialistas, artistas e tecnólogos de várias partes do mundo participaram de mesas-redondas sobre temas como políticas de criação, redes e novos espaços de intervenção, perspectivas da mídia arte, inclusão digital, sociedade global, realidades emergentes e espaços virtuais imersivos. Parte desse conteúdo está representada artisticamente nas obras que compõem a exposição de mesmo nome, com curadoria de Arlindo Machado e Gilbertto Prado. Leia, nesta seção, a cobertura de cada mesa de debate.

Compromisso com Arte Tecnológica

Por Carlos Costa, 2 de Julho de 2004
Fotos Rubens Chiri

Homenagens e elogios marcaram a abertura do simpósio internacional Emoção Art.ficial 2.0 – que reafirma o compromisso do Itaú Cultural em pesquisar, desenvolver, divulgar e discutir a produção de expressões artísticas contemporâneas de ponta, unidas em torno da artemídia.

Após breves discursos da diretora executiva do Instituto, Malú Pereira de Almeida, e dos curadores do evento, Arlindo Machado e Gilbertto Prado, o escritor Haroldo de Campos (1929-2003) e o artista plástico Julio Plaza (1938-2003) foram homenageados com depoimentos dos artistas Boris Schneiderman e Regina Silveira. Encerrando a noite, o consultor do evento, Jeffrey Shaw (foto), apresentou um pouco do seu trabalho e de suas intenções com o Emoção Art.ficial 2.0.

A escolha dos homenageados, explicaram os curadores, deu-se pelo pioneirismo de Campos e Plaza em experimentar as expressões artísticas contemporâneas e os suportes tecnológicos em suas produções, que são referência atual. Os depoimentos revelaram artistas maiores, que conquistaram respeito não só pelo flerte com a modernidade, mas também pela sensibilidade, talento e ousadia.

Boris Schneiderman, escritor e tradutor, lembrou em tom pessoal e emocionado o período de convívio e amizade com os irmãos Haroldo de Campos e Augusto de Campos, seus alunos de russo. “Morto aos 73 anos, Haroldo deixou um legado, apenas levando em consideração as traduções, que impressiona pelo volume e, principalmente, pela qualidade”, declarou Schneiderman.

Regina Silveira, casada com Julio Plaza durante 18 anos, falou sobre o período em que o artista morou na Espanha e em Porto Rico. Nascido em Madri, Espanha, Plaza deixou seu país em 1960, insatisfeito com a ditadura de Francisco Franco (1892-1975). Regina revelou curiosidades, como a história do carro que Plaza construiu e usava em Porto Rico e ratificou a importância do artista. “É o substrato poético que confere durabilidade à sua produção nos efêmeros suportes tecnológicos”, declarou.

Jeffrey Shaw parabenizou a iniciativa do Itaú Cultural em perseguir o tema artemídia e o progressivo envolvimento com a questão, confirmado com a exposição Emoção Art.ficial 2.0 e a montagem de oito obras propostas para esta bienal. Shaw também explicou o processo de escolha do tema, Divergências Tecnológicas, e deixou o público curioso sobre o desenrolar do simpósio.

História e Política na Arte Tecnológica

por Ana de Fátima Sousa. 3 de julho de 2004
Fotos Rubens Chiri

A manhã do sábado foi o momento de reverenciar pioneirismos na história da artemídia e discutir as funções social e política desse tipo de produção.

A primeira mesa, As Redes e os Novos Espaços de Intervenção, trouxe nomes que se confundem com a cronologia da produção de arte tecnológica. Clemente Padin (Uruguai), Paulo Bruscky (Brasil), Fred Forest (França) e Gilbertto Prado (Brasil) remeteram a platéia ao século passado, à década de 1960, quando esses e outros artistas já faziam uso dos correios para criar obras inovadoras.

Foi nos idos anos rebeldes que nasceu a mail art. Impregnada do espírito sessentista/setentista, a idéia que motivava os então jovens criadores era o desejo de apenas comunicar, o que era transgressor para a época, especialmente em cenários de ditadura. Clemente Padin abriu a discussão e destacou como essa manifestação trazia, e traz, a inter-relação humana. “Essas ferramentas que começavam a surgir permitiam ampliação de alcance, diminuição de fronteiras.” Com ares poéticos, Padin disse que o grande valor da arte via redes é ser “uma arte que não se compra, o que interessa é a comunicação”.

Atitude de transgressão
– “A arte postal era a saída mais viável para a arte antiburguesa, anticomercial”, explicou o pernambucano Paulo Bruscky – que teve importante papel no Brasil tanto para arte postal como para videoarte e arte xerográfica. Segundo ele, essa atitude de ir contra o que era esperado no mercado garantiu que a arte retomasse sua função de comunicar.

Bruscky relatou como os “artistas-correio” sofreram com os regimes de censura na América Latina. Em 1975 ele foi parar na prisão. “Naquela época não se sabia quem estava prendendo você e nem para onde se estava sendo levado. Mas como o governo federal mais tarde abriu processo contra mim, creio que se tratava da Polícia Federal.” Outro que conheceu a prisão brasileira foi Fred Forest. Em 1973, quando participava da Bienal Internacional de São Paulo, fez uma performance em pleno Viaduto do Chá, em que as pessoas erguiam cartazes em branco. Os agentes do Dops acharam aquilo suspeitíssimo e prenderam o francês por precaução. Forest ficou detido por algumas horas até que Walter Zanini, da organização da Bienal, conseguiu sua liberação. Clemente Padin também foi preso em seu país e teve sua correspondência “interditada” por vários anos.

Paulo Bruscky descreveu ainda que obras coletivas e globais já aconteciam na antiga forma de correspondência: “correntes” distribuiam uma obra em construção e cada membro da lista dava sua contribuição. Ele lançou uma fala que marcou a discussão de toda a manhã do simpósio. “A arte-correspondência foi a primeira expressão a substituir os museus pelos arquivos pessoais dos artistas.”

Em sua explanação, Gilbertto Prado uniu cronologia e reverência aos pioneiros das novas formas de expressão artística. Reforçou a característica contestatória que congregava esses artistas, citou Roy Ascott como pai da arte telemática, destacou a importância da obra de Fred Forest, Antoni Muntadas, Bruscky e Padin, e fez uma homenagem a Walter Zanini. “Como articulador e crítico, Zanini exerceu papel fundamental e corajoso, fez com que as portas fossem abertas a esses artistas.”

A mesa foi encerrada com Fred Forest, que agradeceu a iniciativa do Emoção Art.ficial de trazer os “anciãos” da artemídia. E destacou a função de sua geração, justamente a de criar uma ação a distância, uma arte de colaboração, de interatividade. “Criamos um modelo que valorizava nossa relação com o mundo. Enquanto a arte tradicional tentava representar e/ou compreender o mundo, essa nova forma tentou agir sobre o mundo, interferir nele.” O artista desse novo modelo se apropria dos meios e pode sim ter poder, já que tem certa autonomia do sistema de arte. E desafiou a platéia: “Nós já fizemos o nosso papel. A vocês cabe encontrar um outro modelo”.

Politização
– A segunda mesa tinha a missão de discutir formas de politizar o debate sobre arte e tecnologia. O catalão Antoni Muntadas foi econômico nas palavras e, objetivo, disse que “se antes a cultura estava presa ao Estado, hoje ela está ligada a instituições que representam grandes corporações e interesses econômicos”. Na seqüência apresentou um slide-show que mistura poder hegemônico, fusão de culturas e uma nítida crítica à banalização.

O alemão Oliver Ressler mostrou a própria forma de politizar. Sua obra artística questiona sempre temas como racismo, migração, engenharia genética.

O argentino Jorge La Ferla, que tem tradição de falas calorosas, abriu dizendo que sempre há perda de discurso político: “Isso não muda com o tempo”. Para ele, perde-se muito tempo falando do novo, vanguarda, e isso não tem nenhuma relevância. “O importante é o que se diz, por que se diz.” La Ferla pegou o gancho de Muntadas, mas amenizou a fala do colega: “É verdade que as grandes instituições estão ligadas a empresas ou grupos poderosos, mas também é fato que são elas que permitem debates como este”. Em sua apresentação, mostrou um histórico das mais importantes instituições de fomento à artemídia, e o ZKM, por exemplo, já foi fabricante de armas de guerra.

La Ferla destacou a evolução da produção brasileira e citou artistas como Rejane Cantoni, Daniela Kutschat, Tânia Fraga como passionais, e que impulsionam de forma extremamente criativa o movimento. A produção teórica de Lúcia Santaella e Arlindo Machado também foi citada como de grande relevância.

A cubana Coco Fusco começou mostrando preocupação com o título da mesa Arte e Tecnologia: Como Politizar o Debate?: “Faz-me pensar: o debate já existe? É só um debate? Esse debate não é politizado?” e continuou “se o mero acesso à tecnologia já inclui ou exclui indivíduos, todo uso da tecnologia é político”. Com uma produção focada no feminismo tecnológico, Coco apresentou trechos de seu mais recente vídeo.

O italiano Davide Grassi, residente na Eslovênia, quebrou a atmosfera séria da mesa, apresentando sua “empresa”, a Problemarket.com – Problem Stock Exchange, que permite a troca de problemas de toda e qualquer proporção e por tempo ilimitado. Sua apresentação com ares de entretenimento foi fechada com a entrega de um certificado de troca de problemas com o presidente Lula – que teria enviado uma solicitação de troca para se livrar da questão dos transgênicos. Com o presidente ausente, a representação nacional ficou a cargo do moderador da mesa, Lucas Bambozzi.

Divergências Sobre Temas Subversivos

Por Carlos Costa. 3 de Julho de 2004
Fotos Rubens Chiri

Divergências e insubordinações permearam os debates finais do segundo dia do simpósio. Os temas sugeridos impulsionaram discursos subversivos, e as diversidades de opiniões e posturas definiram os resultados.

À tarde, a mesa Poéticas e Perspectivas da Artemídia reuniu Anne-Marie Duguet, Christine Mello, Cláudia Giannetti, François Soulages e Ivana Bentes, com moderação de Milton Sogabe. Na abertura do diálogo, Sobage destacou a importância do tema, “assunto que perpassa todas as mesas do simpósio”.

Teórica da arte e professora da Universidade Paris I (Sorbonne), Anne-Marie escolheu a perspectiva da memória da artemídia para iniciar a conversa. “Um arquivo não é simples acumulação, e as informações não podem ser agrupadas de forma amorfa”, assim, ela discorreu sobre o projeto de uma enciclopédia virtual em DVD que coordena, exibindo trechos do trabalho. “Não é a quantidade de informações que importa. É a releitura, o novo ensaio.”

O francês François Soulages, professor da Universidade Paris 8, falou do trabalho de pesquisa que desenvolve sobre a relação entre corpo e web, que classificou como psíquica e erotizada. “A dupla natureza do desejo marca a relação do corpo com a internet. Essa relação e seus inúmeros significados e conseqüências são matéria de destaque na produção artística de artemídia.”

A diretora do Media Centre d´Art i Disseny, Mecad, de Barcelona, Cláudia Gianetti, esboçou por meio de didáticos gráficos o não-linear desenvolvimento da artemídia, desde seus primórdios, relacionando artistas, obras, marcos históricos científicos e questões estéticas. Ivana Bentes, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ, comentou sobre os caminhos da artemídia apresentando obras diversas. Ambas lembraram do trabalho percursor da artista plástica brasileira Lygia Clark (1920-1988).

Terrorismo – O tom subversivo ficou por conta do artigo de Christine Mello, da Universidade de São Paulo, USP, que comparou a produção de artemídia aos atentados terroristas. “Uma metáfora para a compreensão do mundo desmontado.” Christine mostrou as características terroristas de manifestações artísticas contemporâneas, como o trabalho de Lucas Bambozzi. “Os softwares viróticos, as invasões aos sistemas de segurança, a quebra de bloqueios institucionais. A artemídia, tudo isso ocupa zonas de risco e tensão”, definiu.

A mesa final, Inclusão Digital, Software Livre, Códigos Abertos, aprofundou questões políticas e sociais e reafirmou a necessidade de dar acesso digital aos excluídos.

Na mesa, André Lemos, Angie Bonino, Hernani Dimantas, Rejane Spitz e Susana Noguero. O moderador Guilherme Kujawski, do Itaulab, começou o debate reivindicando a manutenção da liberdade de expressão, característica maior da comunicação na web, ameaçada pelo “recrudescimento da legislação de direitos autorais”.

Em seu depoimento, Rejane Spitz, da PUC/RJ, observou que as estimativas mais positivas revelam que apenas cerca de 7% da população mundial têm acesso à web.

Coletivo e Individual na Rede

por Marco Aurélio Fiochi. 4 de Julho de 2004
fotos Rubens Chiri

Em cenário onde os usuários da internet se tornam avatares, ou seja, ganham um corpo virtual; onde as comunidades de discussão despontam como alternativa para pessoas com interesses e ideologias comuns; e onde é possível subverter o funcionamento das instituições por meio de ações globais que afrontam seu poder, surgem no ciberespaço iniciativas e experimentos artísticos que deixam o homem da era tecnológica cada vez mais individualizado. É a chamada subjetividade em rede.

No terceiro dia do simpósio internacional Emoção Art.ficial 2.0 – Divergências Tecnológicas, as experiências de interação homem-máquina foram a pauta da mesa Subjetividades em Rede, que reuniu Mariela Yeregui, Minerva Cuevas, Sara Diamond, Giselle Beiguelman, Suzette Venturelli e Mario Maciel, com mediação da artista Paula Perissinotto.

Mariela Yeregui, artista residente do Media Centre d’Art i Disseny, Mecad, em Barcelona , centrou sua apresentação na criação em novos meios, que classifica como trabalhos “na” e “para” a rede. Segundo ela, o intercâmbio entre as pessoas no espaço virtual permite criar marcos ideológicos. “A identidade do sujeito, sua postura contrária ao discurso dominante, surge dessa mobilização. Ela desperta o poder de ativismo e resistência das pessoas”, ressaltou.

A postura é compartilhada pela artista mexicana Minerva Cuevas, cuja obra Mejor Vida Corp. (1998), em exibição na mostra Emoção Art.ficial 2.0, é um libelo em favor da democracia e inclusão dos marginalizados na rede.

Trata-se de uma empresa fantasma virtual, que subverte símbolos publicitários, mostrando o “outro lado” de produtos e instituições. Um exemplo da atuação da MVC é a campanha sobre o Instituto de Informação e Estatística do México, Inegi, a qual denuncia que a instituição exclui os indigentes de seu censo. Outro serviço prestado pela “empresa” via internet são credenciais para que estudantes obtenham descontos. Códigos de barra criados pela MVC permitem que consumidores comprem produtos mais baratos nos supermercados.

Desmistificando a rede – Sara Diamond, videoartista e produtora executiva do Banff Centre, Canadá, defendeu os ambientes colaborativos de criação e desenvolvimento online. Segundo ela, é necessário desmistificar e criar comportamentos pessoais no espaço virtual. Tal processo é demonstrado no vídeo do projeto CodeZebra. A obra inicia-se com dramatizações, que são filmadas, e chegam à internet, onde a subjetividade está implícita, delineando toda a experiência.

Sara e o Banff Centre estiveram presentes na primeira edição de Emoção Art.ficial, em 2002, com a obra Talk Nice, que analisava a forma como as pessoas se expressavam na rede.

Giselle Beiguelman, artista e professora da PUC/SP, destacou a ação da “sociedade de controle” no espaço doméstico e no corpo. Como exemplo, citou os smart cards, que monitoram o que as pessoas consomem. “Passamos a ser bancos de dados ambulantes, é um cenário muito parecido ao retratado por Steven Spielberg em seu filme Minority Report, observou. “Em uma experiência ocorrida em Tijuana, México, chips foram implantados em crianças para monitorá-las, a fim de evitar seqüestros”, contou. Segundo a professora, essas ações significam que os corpos mudaram de estatuto na nova era e agora são tecnologizados, sistemas híbridos.

Suzette Venturelli, artista e professora da UnB, Brasília, e Mario Maciel, que juntos expõem em Emoção Art.ficial 2.0 a obra F69, trouxeram para o palco do simpósio o Robowww, experimento de arte robótica em desenvolvimento pela dupla. Educação a distância, com programas que simulam laboratórios, e a criação de games para celulares foram alguns dos assuntos abordados em sua apresentação.

Realidades Emergentes

por Carlos Costa. 4 de Julho de 2004
fotos Rubens Chiri

A mesa Realidades Emergentes estimulou caloroso e longo debate entre artistas e público. Com mediação do gerente do Laboratório de Mídias Interativas do Itaú Cultural, Itaulab, Marcos Cuzziol, Diana Domingues, Iliana Hernandez, Rodrigo Alonso e Sílvia Laurentiz discutiram aspectos e usos das realidades virtuais na arte tecnológica.

A brasileira Sílvia Laurentiz, da PUC/SP, apresentou seu ambiente virtual de palavras Community of Words (que está em fase de implantação e ainda não apresenta o resultado: a possibilidade de visualizar uma simulação de estruturas de textos em terceira dimensão, como esculturas virtuais. Mas já mostra a interface final.

Acessando o site, o usuário pode interagir com o acervo de palavras existente. Qualquer pessoa pode colocar poemas e textos na comunidade e observar de imediato as conseqüências. O programa está na primeira fase e o título é provisório. Até a conclusão, passa por duas outras fases.

Diana Domingues, da Universidade de Caxias do Sul, UCS, foi a última a falar e convidou o professor da UCS Eliseo Berni Reategui para participar da mesa. Ambos explicaram intenções e a concepção da ciberinstalação I’mito: Zapping Zone, presente na mostra Emoção Art.ficial 2.0. A obra foi criada pelo Grupo de Pesquisa Integrada ARTECNO da UCS, coordenado por Diana e do qual Reategui faz parte.

O trabalho explora a fabricação de identidades a partir de uma base de dados de 20 personalidades históricas. Um leitor de código de barras interpreta objetos por meio de um programa elaborado com algoritmos genéticos e os associa às identidades de mitos. As informações são transformadas em imagens deformadas com a técnica morphing de computação gráfica e projetadas em telões, que podem ser observados com óculos de 3D.

A pesquisadora Iliana Hernandez, doutora pela Sorbone, leu texto sobre realidades emergentes e ambientes imersivos numéricos. Rodrigo Alonso, da Universidad de Buenos Aires e do Mecad, optou por uma análise mais ampla da questão das realidades emergentes e falou sobre os trabalhos apresentados.

Ao fim, a resposta à questão proposta pela mesa – se a realidade mundial está se beneficiando com a ampliação das realidades virtuais – parece ser positiva.

Arte com Funções Sociais na Cidade

por Fabrízio Penteado, 4 de Julho de 2004
fotos Rubens Chiri

Utilizar a arte e seus aspectos tecnológicos como forma de manifestação urbana foi o tema da mesa-redonda realizada no domingo à noite, A Cidade como Interface. A pauta elevou a arte contemporânea a um patamar distante da mera intervenção poética e urbana, priorizando as questões sociais.

Nas urbes modernas, principalmente em metrópoles como São Paulo, muitas vezes o ser humano se torna invisível em relação ao próximo, a si mesmo e ao meio que o cerca. Com questões definidas, artistas sentiram-se livres para explorar o espaço urbano e alterá-lo de forma artística, mas também como pano de fundo para um evento social.

Mediada por Marcelo Tramontano, a palestra contou com a presença de Simone Michelin, Michael Rakowitz, Nelson Brissac Peixoto e Fabio Duarte.

A artista plástica Simone Michelin detalhou sua obra, que pode ser apreciada no lado externo do edifício, como uma forma de interface para quem a vê, transformando o espectador em participante. Batizada de ADA – Anarquitetura do Afeto, a obra representa a disparidade com que aceitamos determinadas vigilâncias, questionando o que podemos suportar.

Fabio Duarte exemplificou com o objetivo principal de 10 Dencies São Paulo/ 10 Lavoro Immateriale, obra do grupo Knowbotic Research. Através de dois monitores, palavras-chaves são dispostas numa nuvem, aparentemente nebulosa, que reagrupadas de acordo com o espectador fornecem uma gama de informações entendida de forma diferente por cada um. Pela interatividade com o programa, a obra deixa de ser estática, sendo sempre mutável e não-linear. O caos aparente pode ser entendido como o próprio mundo dinâmico em que vivemos.

Com uma explícita preocupação social, Michael Rakowitz usou moradores de rua como seu principal outdoor. Sua obra é uma espécie de bolsa térmica adaptada aos exaustores (ventiladores) de edifícios das grandes cidades que serviria de morada para sem-teto. Inflado, além de preservar calor e conseqüentemente a vida de seu ocupante, o “iglu de ar” é uma intervenção urbana que os passantes, atraídos pela curiosidade, descobrem tratar-se de uma moradia. Do ponto de vista do artista, mais importante que proporcionar calor ao ocupante, a obra torna-o visível novamente, atraindo a atenção dos pedestres.

Tecnologia digital como interação entre o meio e a cidade foi um dos pontos levantados por Nelson Brissac que citou a obra do grupo holandês AVL: pequenas moradias de fibra de vidro para moradores de rua. Além do conceito de fornecer casas para desabrigados, o grupo holandês sugeriu que as obras fossem utilizadas por seus moradores e administradas por eles como forma de inclusão social. Barracas de doces, pontos de jogo do bicho e pequenos bares foram algumas das soluções encontradas pelos sem-teto para preservar e utilizar o espaço, tornando o ambiente habitável, conseqüentemente, digno.

Saiba mais sobre obras feitas na fronteira entre arte e resistência social, nas obras de Fran Ilich, Cristina Costa e José-Carlos Mariategui.

Da Caverna de Platão à Atualidade das Caves

Por Marco Aurélio Fiochi, 5 de Julho de 2004
Fotos Rubens Chiri

A discussão sobre os Espaços Virtuais Imersivos, mesa que abriu o quarto e último dia do simpósio internacional Emoção Art.ficial 2.0, não poderia começar de modo mais sugestivo: para falar das caves, consideradas o estágio mais avançado de imersão no ciberespaço, o professor da PUC/SP, crítico e curador Arlindo Machado retrocedeu dois mil anos e situou o embrião dessa experiência na Alegoria da Caverna de Platão. “A cave, ou Automatic Virtual Environment, é a integração entre o natural, a caverna, e o artificial, o espaço cibernético. A ‘cave’ de Platão era um ambiente natural, diferente da cave digital, que não possui nenhum elemento real”, observa.

Machado cita dois trabalhos que conjugam ambientes naturais e artificiais: as obras Teleportando um Estado Desconhecido, de Eduardo Kac, e ADA – Anarquitetura do Afeto, de Simone Michelin, ambas em exposição na mostra Emoção Art.ficial 2.0. “São exemplos de caves que suplantam a cave platoniana, pois têm o dentro e o fora.”

CinemaAndré Parente, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, comunga com Machado a teoria de que o cinema é um dos principais ambientes de imersão. “O cinema requer um transporte psicológico. Nenhuma tecnologia me faz interagir mais do que o cinema, ele é multimídia”, acredita Parente. Doutor em cinema pela Universidade de Paris VIII, ele trabalha desde 1997 com as interações entre o movimento cinemático, o audiovisual e a imersão virtual. “A virtualidade não depende de tecnologia. Vivemos da mesma forma imersos na linguagem, no simulacro e no ciberespaço,de acordo com o pensamento de Saussure, Baudrillard e Virilio.”

Já a artista e professora da PUC/SP Rejane Cantoni faz o contraponto e defende a tecnologia como fator determinante para a imersão. A posição encontra eco nas palavras de Tânia Fraga. Entre os projetos, ou sonhos, como prefere classificar, da artista e arquiteta estão ambientes imersivos como a “casa-tartaruga”, a “casa-borboleta” e a “casa-concha” – que pode crescer ou diminuir de acordo com a necessidade de seu morador.

Na contramão da corrente tecnológica, Machado encerrou a discussão declarando que na imersão leva-se em consideração apenas o aparato técnico. “É necessário considerar o envolvimento psicológico do interator, sua predisposição em interagir, projetar-se, imergir psicologicamente.”

O Novo Paradigma Biológico

por Fabrízio Penteado, 5 de Julho de 2004
fotos Rubens Chiri

Como novas formas de tecnologia interferem nos conceitos referentes à vida? Na palestra desta segunda-feira à tarde, debatedores explanaram suas opiniões sobre o paradigma criado pela divergência das novas mídias em relação ao ser humano e questionaram até que ponto pode ser considerada ética a utilização dos recursos tecnológicos.

Moderada por Eduardo de Jesus, a palestra teve a presença da crítica de arte francesa Anick Bureaud e dos artistas Eduardo Kac, Paula Sibilia e Roy Ascott. Anick ressaltou a arte tecnológica como uma das novas formas artísticas e, mais importante, como uma arte da nova mídia que surge, a digital.

Aqueles que ansiavam em ver o coelho fosforescente, modificado geneticamente por Eduardo Kac, ficaram decepcionados, o animal não pôde deixar o laboratório por problemas legais. Porém Kac mostrou pontos tão interessantes quanto o animal. De acordo com o palestrante, a Teoria da Evolução de Darwin apresenta falhas ao afirmar que apenas as mutações são responsáveis pela evolução das espécies.

“A simbiose e a cooperação, dois fatores fundamentais à vida, escaparam da Teoria de Darwin” disse Kac, que se propôs a criar diversas conexões entre esse comentário e o tema da palestra. E ainda encontrou tempo para explicar algumas obras, entre elas o Lance 36, uma alusão à jogada que levou à derrota o campeão de xadrez russo Garry Kasparov na partida contra o supercomputador Deep Blue.

A citação “Deus criou o universo como um grande relógio e deixou a máquina funcionando sozinha, então o homem se proclamou livre para alterar a natureza ao seu redor” sintetiza o discurso de Paula Sibila, que fez um paralelo entre o meio que nos cerca e a preocupação do homem em se autovalorizar. Com o advento das manipulações genéticas, uma nova natureza vem sendo delineada pelo homem, uma espécie de reinvenção da vida. Essa seria a alquimia do DNA.

Por último, o diretor fundador do The Planetary Collegium, na Universidade de Plymouth, Roy Ascott ateve-se ao caso das nanotecnologias. Na esperança de identificar falhas no programa humano (DNA), o artista opina ele: “Nano é pura matéria e pura consciência, é a transição entre moléculas e células”. Roy também explicou sobre fótons, dizendo que se tratavam de uma ajuda para criar alguns tipos de vida.

Resistência Social e Vastos Caminhos para a Arte

por Carlos Costa, 5 de Julho de 2004
fotos Rubens Chiri

O artista mexicano Fran Ilich, de camiseta e jeans, encerrou o simpósio Emoção Art.ficial 2.0 apresentando os atos rebeldes e vândalos que cometeu, com um grupo de outros artistas, em zonas de fronteiras do México com os Estados Unidos, para protestar contra a severa proibição de imigração.

Resistência social, bom-humor e criatividade transformaram roubos de telefones, distribuição de comida, mentiras e baderna em intervenções artísticas eficientes que, por fazer usos de tecnologias avançadas e novas formas de mídia, como laptops, a linguagem dos games e correspondência eletrônica, encerraram a discussão mostrando que os caminhos da arte são vastos e imprevisíveis.

Ilich comanda, há cerca de três anos, constantes intervenções nas fronteiras do México/EUA, principalmente em Tijuana. Entre as ações, distribuiu kits-imigrante (comida e água) pelo deserto americano, promoveu festas nas zonas de fronteira, perturbou polícias, roubou telefones públicos e chegou a forjar um e-mail de órgão oficial do governo americano liberando as fronteiras por três dias e enviá-lo como comunicado oficial para imprensa mexicana. Com sorte, escapou de qualquer punição. As experiências, devidamente registradas em mídias de ponta, foram lembradas e citadas, divertindo a platéia da palestra. Ilich, como não poderia deixar de ser, está na web.

Antes do mexicano, a mesa recebeu contribuições de outros quatro artistas, que também apresentaram e explicaram obras próprias. Ponto comum entre os que preferiram teorizar – como Cristina Costa, da USP, e José-Carlos Mariategui, da Alta Tecnologia Andina, ATA – foi a sentença de que recriar é preciso, mas não são as novas tecnologias que darão sentido á revolução, e sim as idéias.

Repartir o bolo – Mariategui comentou seu trabalho, o E-Tester, que propõe um novo uso da rede baseado em conexões por meio das pessoas. E encerrou a palestra exibindo um vídeo de Diego Lama, que misturava Francis Ford Coppola (O Poderoso Chefão II) e Carmem Miranda (South America Way) para sugerir, por meio da metáfora da divisão de um bolo de aniversário, mais eqüidade no mundo.

Em seguida, Cristina Costa apresentou sua pesquisa sobre interatividade, com o site Narrativas, que exibe histórias a serem completadas pelos usuários da rede. Entre as conclusões que apontou está a certeza de que a interatividade precisa ser induzida, para ter grandes efeitos. Em seu caso, por meio de textos de estrutura aberta, que convidem a participação com sugestões. “A interatividade não é recurso tecnológico”.

Nomes sem tradução – Com uma performance simples, a dupla de artistas Maurício Dias (brasileiro) e Walter Riedweg (suíço) transformaram o ambiente, lendo, simultaneamente, nomes de pessoas, muitas delas artistas e funcionários do Itaú Cultural envolvidos na produção do simpósio, e nomes de diversos lugares do mundo todo. Ao fim, juntos, disseram: “nem todo nome se traduz”.

A performance dialoga com a obra dos artistas, que critica questões ligadas a nacionalidade, fronteiras e migração. Sempre dividindo a palavra, como em um jogral, falaram sobre poesia, erotismo, humanidade e apresentaram duas obras: Inside & Outside the Tube (1999) e Voracidade Máxima (2003), desenvolvidas e apresentadas na Europa.

A primeira era uma intervenção na periferia de Zurique (Suíça), que reproduzia áudios de trechos de depoimentos de imigrantes ilegais, em cerca de 20 línguas diferentes, em tubos de calefação espalhados pela área.

A segunda, criada para o Museu de Arte Moderna de Madri (Espanha), era composta por uma sala de espelhos onde eram exibidos trechos de depoimentos de michês, também imigrantes ilegais, que apareciam nas imagens usando máscaras com os rostos dos dois artistas.