Simpósio Emoção Art.ficial 2002

São Paulo, 11 a 14 de Agosto de 2002

Para discutir as possibilidades da relação entre a arte e a cultura digital, bem como estabelecer parâmetros sobre suas definições, produção e interfaces, o Itaú Cultural promoveu, em 2002, o Simpósio Internacional [ emoção art.ficial ]. Com representantes dos principais media centers do mundo, de universidades nacionais e internacionais, as mesas-redondas analisaram como a tecnologia se alia ao processo criativo contemporâneo. Leia aqui a cobertura de cada mesa

Lev Manovich inaugura as discussões do simpósio

por Ana de Fátima Sousa, 11 de Agosto de 2002
fotos de Carol Lambert

O artista e teórico russo Lev Manovich marcou a abertura do Simpósio Emoção Art.ficial. Manovich trouxe para o público brasileiro um paper recém-escrito, The Anti-Sublime Ideal in Data Art. Segundo ele, a data art é um apanhado de dois conceitos principais: um é o de visualização de dados e o outro consiste no mapeamento de dados.

Os computadores funcionam como meio intermediário para expressão dessa nova esfera artística, uma vez que tornam mais fácil o mapeamento de dados e geram diferentes desenhos, leituras e até mesmo interpretação gráfica desses dados [visualização] – que pode ir de um simples gráfico cartesiano até um quadro abstrato que lembra Mondrian.

“É possível pensar na arte como um grande mapeamento de dados, sejam eles imagens, sons ou cores”, afirmou o artista. O mapeamento – para Manovich – é a forma mais adequada de descrição do que as novas mídias fazem com as antigas. Ao mapear uma obra, você tem a possibilidade de acrescentar novas interfaces, novos tipos de objetos, preservando sempre a estrutura da mídia original [um exemplo foi a junção de vários frames de um filme que se transformam numa única imagem].

Lev Manovich citou uma série de trabalhos que trafegam pelo campo da data art. As obras de Joachim Sauter – que também está na exposição Emoção Art.ficial – e do media center ART+COM foram amplamente citadas ao longo da palestra. Uma boa dica de Manovich para os curiosos é o site do Whitney Museum que seleciona um série de obras na linguagem data art.

A abertura das discussões também premiou os participantes com o lançamento nacional do documentário Sónar 2002, de Denis Rodriguez e Eliana Iwasa (vídeo digital, 18 min), sobre a última edição de um dos maiores festivais de arte eletrônica que acontece em Barcelona.

A artemídia é (re)definida em caloroso debate

por Ana de Fátima Sousa, 12 de Agosto de 2002
fotos de Carol Lambert

O termo artemídia foi o grande alvo de debate da primeira mesa do simpósio [ emoção art.ficial ]. Os palestrantes Alex Adriaansen (V2_ Organisation/Holanda), Cláudia Giannetti (MECAD/Espanha), Arlindo Machado (PUC/Brasil) e Monika Fleishmann (MARS/Alemanha) apresentaram um consenso em torno das infinitas possibilidades de definição. Todos afirmam que essa nova expressão artística é um campo instável, maleável, repleto de variantes, e essa é sua maior qualidade. É somente em um meio de instabilidade que a criatividade emerge.

Um dos destaques da mesa foi um discurso afiado e destilado pelo holandês Alex Andriaansen, um dos artistas-fundadores da V2_ Organisation. É dele a definição de mídia instável para a produção de artemídia. “A instabilidade dá aos objetos e aos processos artísticos a qualidade de dinamismo, de possibilidade de transformação”, afirma. Segundo ele, o estado “instável” pode ser apontado como a força que desequilibra a estrutura homogênea das coisas. “O conflito é absolutamente necessário para a criação em artemídia e para transformação do mundo também”, acredita.

Andriaansen apresentou ainda uma nova visão que se tem da relação homem-máquina. Se antes o homem operava as máquinas, hoje ele trabalha junto a elas. Existe uma intensa rede de colaboração, o que o teórico chama de relação ‘maquímica’ (máquina + química).

A palestra do professor brasileiro Arlindo Machado também foi um dos grandes momentos da mesa. “Particularmente acho que o termo artemídia tem sido interpretado de forma mais restrita, que é a que associa unicamente o aspecto técnico de usar equipamentos eletrônicos para produzir belas obras. O que esse novo artista de fato produz? Ele desprograma a máquina, dá uma nova função para os aparatos tecnológicos”, garante. A máquina, segundo Machado, passa a operar de forma transgressora, exerce um papel novo e se insere socialmente. “Os críticos presos à tradição descrevem a artemídia como efêmera, epidérmica, superficial. Mas espertos são os críticos que enxergam a nova arte como um percurso natural de transformação das expressões humanas”, aponta.

A envolvente e didática palestra de Arlindo foi encerrada com uma referência ao pensador alemão Walter Benjamim, que – à sua época – já previa o eterno embate de definições da arte. “O problema não é saber o que podemos considerar ou não como arte. O que de fato importa é perceber que a simples existência dos novos produtos coloca em crise antigas definições e exige uma reformulação do pensamento”.

A clara paixão de todos os palestrantes pelo tema [artemídia] ficou evidente na palestra da diretora do MARS, Monika Fleishmann. “A IBM tem muito mais influência em nossas vidas do que 40 anos de comunismo, o que praticamente já esquecemos. Mas a nossa relação com a tecnologia é intensa, envolve-nos completamente, deixa-nos inquietos para transformar o mundo”, disse categoricamente.

Uma boa nova que vai agradar técnicos, artistas e curiosos em geral, foi dada pela representante do MECAD -media center espanhol – Cláudia Giannetti. A Escola Superior de Disseny da instituição oferece bolsas para mestrados e cursos regulares. As inscrições estão abertas e podem ser feitas no site da instituição [www.mecad.org].

Centros de artemídia revelam linhas de trabalho

por Carlos Costa, 12 de Agosto de 2002
fotos de Rubens Chiri

Dirigentes de cinco importantes centros de produção e pesquisa em artemídia do mundo deram as cartas sobre o funcionamento das instituições, durante a segunda mesa do [ emoção art.ficial ], na noite de segunda-feira, dia 12. Mostrando obras de destaque da produção, explicando as linhas de pesquisa e fomento que adotam e revelando orçamentos, interesses e opiniões, os participantes ajudaram a compor o cenário de como trabalham os grandes centros de artemídia.

A abertura ficou a cargo de duas representantes da instituição australiana Experimenta, Fabienne Nicholas e Elizabeth Hughes, que trabalha com pesquisa e desenvolvimento de vídeos digitais e instalações, atrelados ao desenvolvimento tecnológico e congruências entre diferentes ciências. Sem galeria ou instalações específicas para exposições, a instituição expõe as obras e projeta os vídeos em diversos locais, de galpões a residências.

Para o próximo ano, prepara a exposição House of Tomorrow, que pretende mostrar uma casa completamente interativa, que retrate o possível futuro nos imóveis residenciais, com criatividade. Segundo Elizabeth Huges, a exposição irá acontecer na região metropolitana de Melborne. A instituição está aberta para sugestões e projetos relativos à House of Tomorrow. Maiores informações podem ser obtidas no site.

O presidente do Iamas, Itsuo Sakane, do Japão, falou sobre a história da criação do instituto, mostrou imagens de parte do vasto e amplo acervo que possuem, ressaltou a preocupação com ensino e a ajuda das parceiras com empresas privadas, característica também presente no Experimenta. O maior destaque ficou com as projeções das obras, que provam que a artemídia transita pelas mais diferentes áreas do conhecimento humano e tem forte apelo lúdico.

Dando continuidade às palestras, Audrey Navarre, da Fondation Daniel Langlois, do Canadá, explicou as linhas de trabalho da fundação, entre elas o programa voltado ao desenvolvimento de projetos de organizações, que prioriza iniciativas vindas da América do Sul e do Nordeste da África.

A fundação foi criada por Daniel Langlois, o responsável pelo primeiro curta de animação digital do mundo, e tem como objetivo ajudar a pesquisa e a implantação de projetos que vêm de países em desenvolvimento. O site da fundação oferece mais informações sobre os programas.

Vindo da Polônia, Piotr Krajewski contou a experiência do WRO – Center for Media Art, nascido na época em que o país ainda vivia sob o regime comunista. A instituição apresenta funcionamento em moldes parecidos às demais e se dedica exclusivamente à artemídia.

Reanimando a platéia, a curadora do Banf Center, do Canadá, Susan Kennard, ressaltou a pesquisa que a instituição vem realizando em relação a trabalhos e obras de arte que abordam as restrições emocionais da tecnologia, a exemplo da obra Talk Nice, que faz parte da exposição [ emoção art.ficial ] e foi produzida e desenvolvida por meio de linhas de pesquisa e fomento da instituição.

Comunidades virtuais e a construção da realidade

por Carlos Costa, 13 de agosto de 2002

fotos de Carol Lambert

Duas obras desenvolvidas por Gilbertto Prado e pela equipe do Itaulab – Imaterialidades e Desertesejo – foram o mote da palestra do artista multimídia, que deu início à terceira mesa do simpósio [emoção Art.ficial], durante a tarde de hoje. As obras, que criam ambientes virtuais, foram matéria para reflexões sobre a análise crítica da construção da realidade, questão retratada à exaustão pela arte.

O tema da mesa, Redes e Comunidades Virtuais, também foi explorado por Prado com referências a duas outras obras de artistas brasileiros – Jornada Xamânica e Vozes. Para encerrar a palestra, Gilbertto Prado optou pela leitura de um texto no qual, entre outras questões, analisou o papel do usuário dos ambientes virtuais, “senhor e parte dos ambientes que visita”.

Ravi Sundaram, membro do CSDS, da Índia, aproveitou a oportunidade para traçar um histórico sobre as redes que sempre ligaram os homens, particularmente na Índia. Desde o surgimento da Imprensa, passando pelo telégrafo e pelo trem, as redes virtuais sempre uniram os homens. Para o estudioso, shoppings, aeroportos e outros lugares similares funcionam exatamente como comunidades virtuais.

Dando seqüência, Mônica Narula, uma das sócias fundadoras do mídia center Sarai, da Índia, mostrou aos participantes o website Opus que trabalha com uma plataforma aberta para usuários comporem redes de comunicação virtual.

Curadora do Transmidiale, Festival Internacional de Artemídia da Alemanha, Susanne Jaschko falou sobre a força da cultura jovem que constrói a artemídia, de caráter divertido e lúdico. “As crianças sem fio desenvolveram uma forma de expressão própria”, comentou. Segundo a curadora, as duas maiores formas de expressão dessa cultura estão estampadas nos games e perceptíveis na música. Entre outras obras, ela mostrou ao público um vídeo sobre a composição de uma música a partir de sons de um Game Boy.

Por último, Anne Nigten, gerente do V2_Lab, da Holanda, mostrou trabalhos do laboratório, como um game interativo baseado na obra do pintor Jheronimus Bosch, criado como solução para substituir um site do museu que reúne as obras do artista.

A produção latino-americana

por Ana de Fátima Sousa, 13 de Agosto de 2002
fotos de Carol Lamberti

O debate da quarta mesa do simpósio [ emoção art.ficial ] deixou pistas do que está acontecendo no panorama latino-americano de arte e tecnologia. Mas foram apenas pistas. A discussão que prometia ânimos exaltados trouxe breves resumos de produções argentinas, brasileiras, mexicanas e peruanas.

O representante da Universidad de Buenos Aires, Jorge La Ferla, abriu a programação da noite de terça-feira (13) com um trocadilho politizado. “Na Argentina não estamos vivendo emoções artificiais. A sensação é bem real e é tudo ao vivo e em cores fortes”, disse. A platéia aplaudiu emocionada e ele continuou. “Os nossos banqueiros são os hackers que destróem nosso sistema financeiro e jamais devolvem nosso dinheiro”, disparou.

A fala-protesto do bem-humorado argentino ficou por aí. A preocupação de La Ferla era apresentar trabalhos de artistas conterrâneos que têm desenvolvido projetos na área de arte-tecnologia. Segundo La Ferla, os criadores mais voltados a este campo de expressão estão em outros países, onde recebem incentivos e equipamento para colocar em prática suas idéias. Foram apresentadas obras que têm como característica comum uma linguagem que alia estética, interatividade e a não-linearidade. O artista Marcello Macado foi um dos mais elogiados pelo palestrante. “Essas obras denotam a evolução do audiovisual”, ressaltou.

Jose-Carlos Mariategui (Alta Tecnologia Andina/Peru) traçou um vasto panorama de produção peruana dos últimos dez anos. Segundo ele, a produção latino-americana não está deixada para trás no quadro mundial. “Nossa criação conceitual e artística já está enquadrada nos padrões globais”. Mariategui acredita que este tipo de arte sobrevive e se alimenta de “localizar o global e globalizar o local” – isto é, só se destacam bem aqueles que traduzem suas qualidades regionais em um discurso universal e vice-versa.

Em sua apresentação Mariategui retratou a evolução de artistas do Peru por meio de obras de Francisco Mariotti (que já nos anos 60 trrabalhou com mídia digital), Roger AtasiIván Esquivel e Angie Bonino. Para checar a produção da instituição, vale a pena uma visita ao site.

O mexicano Príamo Lozada apresentou a atuação da instituição Arte Alameda, enquanto o professor e músico argentino Ricardo Dal Farra (Universidad Tres de Febrero) apresentou uma complexa proposta de educação voltada à media art. A brasileira Silvia Laurentiz (ECA-USP) fez uma demonstração do Panorama de Arte e Tecnologia, que desenvolveu ao lado de Arlindo Machado.

Ambiente virtual precisa emocionar

por Ana de Fátima Sousa, 14 de agosto de 2002
fotos de Carol Lamberti

O simpósio [ emoção art.ficial ], na primeira mesa da quarta-feira (14), discutiu o processo de criação de interfaces e de ambientes imersivos. Todos os trabalhos e as propostas apresentados têm como foco principal a inserção de elementos extremamente humanos para gerar interatividade, interesse, emoção. Ambiente virtual sem uma narrativa humana é somente um espaço vazio.

Uma das fortes defensoras dessa linha de pensamento é a artista Elizabeth Vander Zaag (Banff Centre/Canadá). “Por que as novelas fazem tanto sucesso na TV? Porque exibem diariamente novas histórias, sempre traduzem sentimentos como ódio, amor, surpresa. O espectador se espelha nas histórias e por isso entra por completo nessa trama”, explica. Segundo ela, no ciberespaço é a mesma coisa. “Toda e qualquer obra produzida para o homem, precisa conquistá-lo, dar-lhe a sensação de poder interagir com aquele mundo”.

Elizabeth Zaag é a criadora da obra Talk Nice [que está na exposição, em cartaz até outubro, no Itaú Cultural] na qual duas garotas batem papo com os visitantes. A obra funciona pela modulação de voz do usuário. Dependendo das entonações vocais, as garotas “aceitam” o espectador e estabelecem uma comunicação mais amigável.

Outro trabalho apresentado pela canadense foi desenvolvido 1990 e dá dicas de como falar gentilmente com um homem. Uma obra simples, barata, que, segundo a criadora, usa a interatividade muito mais saudável, que é aquela que traz interface e narrativas “amigáveis”.

O alemão Joachim Sauter (ART+COM) apresentou uma série de projetos criados na instituição que ele dirige. Uma das peças mais belas da apresentação foi Time Traveller, na qual o usuário pode navegar por imagens ou filmes de paisagens que foram capturadas em diferentes épocas. Uma das opções é dar uma olhada panorâmica em um vasto campo de Berlim em que, ao sobrepor a imagem do passado, volta-se à época em que o muro de Berlim estava solidamente erguido neste cenário e dividia a Alemanha em duas.

Se existem possíveis receitas para que o ambiente imersivo multiusuário seja usado, o também alemão Wolfgang Strauss (MARS) tem uma. Segundo ele, existem cinco passos: 1 – usuário identifica a estrutura e as regras; 2 – usuário joga com elas (regras e estrutura) 3 – usuário reflete como a ação acontece; 4 – usuário percebe a presença dos outros participantes; 5 – os usuários tentam se comunicar.

O ciberespaço brasileiro foi revelado na palestra de Suzete Ventturelli (UnB). A professora apresentou seus projetos, que vão desde interfaces para multiusuários até sua recente pesquisa na linguagem de games, e trouxe também projetos de outros artistas do país como André Parente, Gilbertto Prado, Diana Domingues, Rejane Cantoni, Daniela Kutschat e Tânia Fraga.

As novas tecnologias transformando a arte

por Carlos Costa, 14 de agosto de 2002

fotos de Carol Lamberti
  

A última mesa do simpósio [Emoção Art.ficial] reuniu artistas e acadêmicos, de diferentes nacionalidades, empenhados em mostrar as novas perspectivas do panorama artístico, em meio às constates evoluções tecnológicas. A impressão que ficou é a de que o homem continua querendo ser Deus. Criar mundos. Repetir o gênesis. Com tintas e papel ou com softwares e plataformas digitais. Mas as novas tecnologias mudaram definitivamente o mundo em que vivemos.  

A abertura coube ao artista brasileiro Eduardo Kac, que mora e trabalha em Chicago (EUA) e atua no universo novo e complexo da arte transgênica. Kac ressaltou em seu trabalho o diálogo entre o tecnológico e o biológico e explicou um pouco suas instalações de arte transgênica, que criaram uma bactéria (inspirada numa adaptação de trecho do livro do Gênesis), alteraram o desenvolvimento e a vida de espécies animais, em prol de um questionamento filosófico.

“É um protesto contra o reducionismo que tenta explicar tudo através da genética”, declarou. Entre as idéias que proclamou durante a palestra, Kac defendeu que, atualmente, Wall Street tem mais poder sobre o desenvolvimento das espécies do que a seleção natural proposta por Charles Darwin.

Em seguida, o australiano Jeffrey Shaw, professor de artemídia na Alemanha, traçou um paralelo entre cinema e artemídia e destacou características importantes para obras que tentam se inserir em uma nova perspectiva da arte, como o espaço imersivo e a interatividade. Shaw também é fundador e diretor do centro de artemídia ZKM e participa da exposição [Emoção Art.ficial] com três obras.

Levantando o ânimo dos participantes do simpósio com bom-humor, o artista e professor francês Maurice Benayoun provocou risos e reflexões. Passeando por suas obras e usando o telão para projetar frases escritas especialmente para o evento, ele comentou com ironia os próprios trabalhos e, dessa forma, construiu suas perspectivas pessoais sobre a artemídia.

Para encerrar as palestras, o artista e acadêmico alemão Roy Ascott propôs uma profunda reflexão filosófica, embasada em citações de diversos teóricos, sobre as possíveis perspectivas para o futuro da arte, com destaque especial para a artemídia.
 
Em seu discurso, construiu três conceitos, originados de possíveis construções com as consoantes VR, em inglês. A Realidade Virtual, conhecida de todos, a Realidade Validade, baseada no aspecto newtoniano, da máquina, e a Realidade Vegetal, concebida com inspiração nas tradições xamânicas e de usos tribais de ervas de poderes alucinógenos.

Com participação ativa do público, a última mesa deixou a certeza de que os horizontes das artes por todo o mundo passam por transformações e de que as novas tecnologias permitem cada vez mais levar os sonhos à realidade, construir ilusões.

A produção latino-americana

por Ana de Fátima Sousa, 13 de Agosto de 2002
fotos de Carol Lamberti

O debate da quarta mesa do simpósio [ emoção art.ficial ] deixou pistas do que está acontecendo no panorama latino-americano de arte e tecnologia. Mas foram apenas pistas. A discussão que prometia ânimos exaltados trouxe breves resumos de produções argentinas, brasileiras, mexicanas e peruanas. 

O representante da Universidad de Buenos Aires, Jorge La Ferla, abriu a programação da noite de terça-feira (13) com um trocadilho politizado. “Na Argentina não estamos vivendo emoções artificiais. A sensação é bem real e é tudo ao vivo e em cores fortes”, disse. A platéia aplaudiu emocionada e ele continuou. “Os nossos banqueiros são os hackers que destróem nosso sistema financeiro e jamais devolvem nosso dinheiro”, disparou. 

A fala-protesto do bem-humorado argentino ficou por aí. A preocupação de La Ferla era apresentar trabalhos de artistas conterrâneos que têm desenvolvido projetos na área de arte-tecnologia. Segundo La Ferla, os criadores mais voltados a este campo de expressão estão em outros países, onde recebem incentivos e equipamento para colocar em prática suas idéias. Foram apresentadas obras que têm como característica comum uma linguagem que alia estética, interatividade e a não-linearidade. O artista Marcello Macado foi um dos mais elogiados pelo palestrante. “Essas obras denotam a evolução do audiovisual”, ressaltou. 

Jose-Carlos Mariategui (Alta Tecnologia Andina/Peru) traçou um vasto panorama de produção peruana dos últimos dez anos. Segundo ele, a produção latino-americana não está deixada para trás no quadro mundial. “Nossa criação conceitual e artística já está enquadrada nos padrões globais”. Mariategui acredita que este tipo de arte sobrevive e se alimenta de “localizar o global e globalizar o local” – isto é, só se destacam bem aqueles que traduzem suas qualidades regionais em um discurso universal e vice-versa. 

Em sua apresentação Mariategui retratou a evolução de artistas do Peru por meio de obras de Francisco Mariotti (que já nos anos 60 trrabalhou com mídia digital), Roger AtasiIván Esquivel e Angie Bonino. Para checar a produção da instituição, vale a pena uma visita ao site

O mexicano Príamo Lozada apresentou a atuação da instituição Arte Alameda, enquanto o professor e músico argentino Ricardo Dal Farra (Universidad Tres de Febrero) apresentou uma complexa proposta de educação voltada à media art. A brasileira Silvia Laurentiz (ECA-USP) fez uma demonstração do Panorama de Arte e Tecnologia, que desenvolveu ao lado de Arlindo Machado.