Cibernética não é só Tecnológica

por Ana Catarina Pinheiro, 22 de Julho de 2006

Paul Pangaro – doutor em cibernética e professor de ciência da computação – encerrou o Simpósio Emoção Art.ficial 3.0 frisando a importância de se perceber a cibernética em sua dimensão social. O professor dissertou sobre os ciclos de interatividade que caracterizam as mais diversas situações rotineiras, não só entre máquinas e os seres vivos, mas entre os homens.

Com isso, a arte e a tecnologia – conjugadas nas obras da mostra Emoção Art.ficial 3.0 – tiveram sua interação e sua dimensão provocativa explicitadas e significadas no contexto da realidade cotidiana. O título da palestra, mencionando a marca automobilística Citroën, já oferecia uma pista dessa abordagem, que trouxe a noção cibernética à vida ordinária e afastou-a da mística de sofisticação tecnológica reinante no senso comum.

Pangaro explicou a cibernética como sistema de circularidade causal, iniciando com o exemplo do automóvel que era programado para ajustar a altura em relação ao chão, independentemente do peso que transportava. Portanto, baseado em uma meta – manter a dirigibilidade constante –, o carro interagia com o ambiente e se auto-regulava. Esse exemplo explicita a lógica cibernética de primeira ordem: um organismo autocontido que responde a estímulos externos, se automodificando.

O professor seguiu assinalando que, se acrescentarmos a esse contexto retroalimentado um sistema observador que interage e se auto-regula a partir da primeira ordem, temos a cibernética de segunda ordem. Nesse nível, Pangaro situou as relações humanas, exemplificando com a esquematização de uma conversa simples. No diálogo, a meta de uma pessoa – no caso, saciar a fome – é explicitada a outra que propõe possibilidades que cooperativamente conduzem a uma ou múltiplas ações, como preparar um jantar com diversos pratos no cardápio.

Nesse sentido, a cibernética surge como um mecanismo no qual um sistema se modifica e modifica outros sistemas – em nível físico e, principalmente, no imaterial das metas e desejos – adaptando-se para atingir objetivos compartilhados. Constitui um processo colaborativo que se aplica desde o aprendizado de passos de dança ao funcionamento da democracia participativa e à produção de conhecimento.

Artefatos cibernéticos
Pangaro reconhece que máquinas produzidas e programadas pelo homem interagem em ciclos cibernéticos de segunda ordem, modificando-se e criando novos artefatos. No entanto, o professor duvida da possibilidade de artefatos chegarem a coincidir com a atividade do cérebro humano, infinitamente capaz de operar com variantes oriundas de interações com máquinas, outros seres vivos e com o ambiente.

Nesse caso, Pangaro contrapôs a cibernética à noção de inteligência artificial, sugerindo a incapacidade de uma máquina reproduzir o funcionamento das redes neurais do cérebro humano. Isso se deve ao pressuposto imprescindível para a inteligência artificial de que a realidade corresponde a uma verdade passível de ser captada. Segundo o professor, para a cibernética, a realidade é construída a partir da negociação sobre o que é verdade, não considerada como um âmbito definitivo e inquebrantável, mas um resultado da interação e da cooperação. Assim, Pangaro assinala que ”a cibernética é uma forma de ver o mundo, uma forma de colaborar e negociar”.

Dog[LAB]01

 

de France Cadet (2004)

Instalação com cinco cães-robôs autônomos, híbridos de diferentes espécies, que foram transformados tanto no comportamento como na aparência.

Saiba mais sobre autonomia, um conceito central para alguns criadores de arte tecnológica.

France Cadet
Artista francesa. Atualmente é professora na Escola Superior de Arte de Aix-en-Provence.

Emergência e Criatividade

 

com Peter Cariani, 2 de Julho de 2008

Sistemas diversos, que vão de crianças em fase de crescimento a robôs sofisticados, experimentam o mundo e, após tentativas e erros, adquirem a independência necessária para se remodelar, a ponto de originar novos comportamentos e funções. Isso revela um tipo de autonomia epistemológica, isto é, a capacidade criativa de o sistema aprender por conta própria a se ajustar da melhor forma ao meio externo.

Assista também às palestras Emergência e Cibernética, Emergência e Estética e Emergência e Caos.

Peter Cariani é biólogo e doutor em ciência de sistemas pela Universidade Binghamton, Estados Unidos. Seus interesses cobrem uma ampla variedade de questões científicas e filosóficas, como cibernética, biologia teórica, sistemas autônomos e neurologia. Atualmente é instrutor na Escola de Medicina de Harvard e professor de cognição musical no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).

Projeto Spio

 

de Lucas Bambozzi, (Brasil, 2004)

Resultado de pesquisa desenvolvida por Bambozzi ao longo dos últimos quatro anos, a obra discute os sistemas de controle e vigilância na sociedade moderna. As imagens captadas por uma câmera instalada sobre um robô espião, que circula dentro da área da instalação, são tratadas e recondicionadas, revelando de maneira cômica o aspecto intrusivo das câmeras de vigilância.

Conheça também ADA – Anarquitetura do Afeto, obra de Simone Michelin que também discute equipamentos e sistemas de vigilância, criando câmeras de circuito “externo”.

Lucas Bambozzi, jornalista formado pela Universidade Federal de Minas Gerais, desenvolve desde o fim dos anos 80 estudos e trabalhos artísticos em torno da expressividade da linguagem audiovisual, com ênfase nos meios eletrônicos. Trabalha em várias mídias e com diferentes suportes. Participou de exposições em mais de 30 países.

Spatial Sounds (100dB at 100km/h)

 

de Marnix de Nijs e Edwin van der Heide, V2_Organisation (Holanda, 2000-2001)

 

Spatial Sounds (100dB a 100km/h) é uma instalação interativa de áudio criada por Marnix de Nijs e Edwin van der Heide. Na obra, acionada por um motor, um alto-falante é ligado a um braço giratório de vários metros de comprimento. Como se fosse um cão de guarda, a máquina analisa o espaço em redor e detecta a presença de visitantes. Olhar de perto é arriscado: o braço se movimenta à alta velocidade. É possível ouvir o ronco impressionante do motor, cujo giro é cada vez mais rápido. O visitante também sente o deslocamento de ar à medida que o alto-falante passa à sua frente. É prudente dar um passo atrás e sair do caminho. A máquina diminui a rotação e, passado o choque inicial, o observador pode investigar o espaço. Mas é bom não se aproximar demais. Spatial Sounds (100dB a 100km/h) constrói uma relação fisicamente tangível com o visitante, uma vez que é o jogo de atração e repulsão entre instalação e observador que determina o som e o movimento da máquina. 

Saiba mais sobre interatividade, conceito central para alguns criadores de arte tecnológica.