México « emocao art.ficial

A produção latino-americana

por Ana de Fátima Sousa, 13 de Agosto de 2002
fotos de Carol Lamberti

O debate da quarta mesa do simpósio [ emoção art.ficial ] deixou pistas do que está acontecendo no panorama latino-americano de arte e tecnologia. Mas foram apenas pistas. A discussão que prometia ânimos exaltados trouxe breves resumos de produções argentinas, brasileiras, mexicanas e peruanas.

O representante da Universidad de Buenos Aires, Jorge La Ferla, abriu a programação da noite de terça-feira (13) com um trocadilho politizado. “Na Argentina não estamos vivendo emoções artificiais. A sensação é bem real e é tudo ao vivo e em cores fortes”, disse. A platéia aplaudiu emocionada e ele continuou. “Os nossos banqueiros são os hackers que destróem nosso sistema financeiro e jamais devolvem nosso dinheiro”, disparou.

A fala-protesto do bem-humorado argentino ficou por aí. A preocupação de La Ferla era apresentar trabalhos de artistas conterrâneos que têm desenvolvido projetos na área de arte-tecnologia. Segundo La Ferla, os criadores mais voltados a este campo de expressão estão em outros países, onde recebem incentivos e equipamento para colocar em prática suas idéias. Foram apresentadas obras que têm como característica comum uma linguagem que alia estética, interatividade e a não-linearidade. O artista Marcello Macado foi um dos mais elogiados pelo palestrante. “Essas obras denotam a evolução do audiovisual”, ressaltou.

Jose-Carlos Mariategui (Alta Tecnologia Andina/Peru) traçou um vasto panorama de produção peruana dos últimos dez anos. Segundo ele, a produção latino-americana não está deixada para trás no quadro mundial. “Nossa criação conceitual e artística já está enquadrada nos padrões globais”. Mariategui acredita que este tipo de arte sobrevive e se alimenta de “localizar o global e globalizar o local” – isto é, só se destacam bem aqueles que traduzem suas qualidades regionais em um discurso universal e vice-versa.

Em sua apresentação Mariategui retratou a evolução de artistas do Peru por meio de obras de Francisco Mariotti (que já nos anos 60 trrabalhou com mídia digital), Roger AtasiIván Esquivel e Angie Bonino. Para checar a produção da instituição, vale a pena uma visita ao site.

O mexicano Príamo Lozada apresentou a atuação da instituição Arte Alameda, enquanto o professor e músico argentino Ricardo Dal Farra (Universidad Tres de Febrero) apresentou uma complexa proposta de educação voltada à media art. A brasileira Silvia Laurentiz (ECA-USP) fez uma demonstração do Panorama de Arte e Tecnologia, que desenvolveu ao lado de Arlindo Machado.

Resistência Social e Vastos Caminhos para a Arte

por Carlos Costa, 5 de Julho de 2004
fotos Rubens Chiri

O artista mexicano Fran Ilich, de camiseta e jeans, encerrou o simpósio Emoção Art.ficial 2.0 apresentando os atos rebeldes e vândalos que cometeu, com um grupo de outros artistas, em zonas de fronteiras do México com os Estados Unidos, para protestar contra a severa proibição de imigração.

Resistência social, bom-humor e criatividade transformaram roubos de telefones, distribuição de comida, mentiras e baderna em intervenções artísticas eficientes que, por fazer usos de tecnologias avançadas e novas formas de mídia, como laptops, a linguagem dos games e correspondência eletrônica, encerraram a discussão mostrando que os caminhos da arte são vastos e imprevisíveis.

Ilich comanda, há cerca de três anos, constantes intervenções nas fronteiras do México/EUA, principalmente em Tijuana. Entre as ações, distribuiu kits-imigrante (comida e água) pelo deserto americano, promoveu festas nas zonas de fronteira, perturbou polícias, roubou telefones públicos e chegou a forjar um e-mail de órgão oficial do governo americano liberando as fronteiras por três dias e enviá-lo como comunicado oficial para imprensa mexicana. Com sorte, escapou de qualquer punição. As experiências, devidamente registradas em mídias de ponta, foram lembradas e citadas, divertindo a platéia da palestra. Ilich, como não poderia deixar de ser, está na web.

Antes do mexicano, a mesa recebeu contribuições de outros quatro artistas, que também apresentaram e explicaram obras próprias. Ponto comum entre os que preferiram teorizar – como Cristina Costa, da USP, e José-Carlos Mariategui, da Alta Tecnologia Andina, ATA – foi a sentença de que recriar é preciso, mas não são as novas tecnologias que darão sentido á revolução, e sim as idéias.

Repartir o bolo – Mariategui comentou seu trabalho, o E-Tester, que propõe um novo uso da rede baseado em conexões por meio das pessoas. E encerrou a palestra exibindo um vídeo de Diego Lama, que misturava Francis Ford Coppola (O Poderoso Chefão II) e Carmem Miranda (South America Way) para sugerir, por meio da metáfora da divisão de um bolo de aniversário, mais eqüidade no mundo.

Em seguida, Cristina Costa apresentou sua pesquisa sobre interatividade, com o site Narrativas, que exibe histórias a serem completadas pelos usuários da rede. Entre as conclusões que apontou está a certeza de que a interatividade precisa ser induzida, para ter grandes efeitos. Em seu caso, por meio de textos de estrutura aberta, que convidem a participação com sugestões. “A interatividade não é recurso tecnológico”.

Nomes sem tradução – Com uma performance simples, a dupla de artistas Maurício Dias (brasileiro) e Walter Riedweg (suíço) transformaram o ambiente, lendo, simultaneamente, nomes de pessoas, muitas delas artistas e funcionários do Itaú Cultural envolvidos na produção do simpósio, e nomes de diversos lugares do mundo todo. Ao fim, juntos, disseram: “nem todo nome se traduz”.

A performance dialoga com a obra dos artistas, que critica questões ligadas a nacionalidade, fronteiras e migração. Sempre dividindo a palavra, como em um jogral, falaram sobre poesia, erotismo, humanidade e apresentaram duas obras: Inside & Outside the Tube (1999) e Voracidade Máxima (2003), desenvolvidas e apresentadas na Europa.

A primeira era uma intervenção na periferia de Zurique (Suíça), que reproduzia áudios de trechos de depoimentos de imigrantes ilegais, em cerca de 20 línguas diferentes, em tubos de calefação espalhados pela área.

A segunda, criada para o Museu de Arte Moderna de Madri (Espanha), era composta por uma sala de espelhos onde eram exibidos trechos de depoimentos de michês, também imigrantes ilegais, que apareciam nas imagens usando máscaras com os rostos dos dois artistas.

Ultra-Nature

 

de Miguel Chevalier (México, 2008)

 

Um jardim virtual cuja flora é composta de seis variedades de plantas digitais coloridas. Cada uma delas evolui de acordo com suas características “genéticas” e pela interação com o público que, por meio de sensores, provoca a polinização entre elas, influenciando o crescimento de novas e inesperadas florações.

Saiba mais sobre interatividade, um conceito central para alguns criadores de arte tecnológica.

Miguel Chevalier é conhecido como um dos pioneiros da arte digital. Nascido no México e radicado na França, graduou-se na Escola Nacional Superior de Belas Artes , em Paris, no início da década de 1980. Em 1994, ingressou como artista residente na Villa Kujoyama, em Kyoto, Japão.

Borderhack

 

de  Fran Ilich (México, 2001)

borderhack

Borderhack é um evento simbólico, um festival de ativistas virtuais e reais, pessoas que questionam as formas como são definidas as fronteiras e as leis de imigração. Attachment é uma exposição online curada por Ilich para o Borderhack, do qual participam artistas e contestadores relacionados ao universo da cibercultura em geral, como Mark Amerika, Oliver Ressler e Rafael Lozano-Hemmer.

Conheça outras obras que usam a arte tecnológica como forma de manifestação urbana.

Fran Ilich, artista mexicano, sempre preocupado com o uso da informática e da internet na sociedade e nos meios educacionais, ocupou em 1975 o cargo de diretor do Cinemátik 1.0, o primeiro festival de cibercultura da América Latina. Cineasta e escritor, é autor do romance Metro-Pop. Hoje, trabalha no media center do Centro Nacional de las Artes, na Cidade do México.

Mejor Vida Corp. (MVC)

 

de Minerva Cuevas (México, 2003)

Mejor Vida Corp.Uma crítica à sociedade de consumo, ao clientelismo político e ao consumismo desenfreado das sociedades capitalistas. MVC é uma empresa fantasma com sede na Torre Latinoamericana, conhecido arranha-céu no centro da Cidade do México. Sua principal estratégia é quebrar, geralmente por meios fraudulentos, as principais regras do capitalismo. Assim, por exemplo, a empresa vende em seu website etiquetas de códigos de barra com preços mais baixos de produtos pré-selecionados e credenciais falsas que permitem a compra de passagens aéreas mais baratas.

Conheça também Problemarket, obra de Davide Grassi e Igor Stromajer que satiriza o mundo das corporações globalmente conectadas.

Minerva Cuevas, artista mexicana, desenvolve trabalhos sociais e políticos que atacam as grandes corporações por meio de sabotagem cultural.

A produção latino-americana

por Ana de Fátima Sousa, 13 de Agosto de 2002
fotos de Carol Lamberti

O debate da quarta mesa do simpósio [ emoção art.ficial ] deixou pistas do que está acontecendo no panorama latino-americano de arte e tecnologia. Mas foram apenas pistas. A discussão que prometia ânimos exaltados trouxe breves resumos de produções argentinas, brasileiras, mexicanas e peruanas. 

O representante da Universidad de Buenos Aires, Jorge La Ferla, abriu a programação da noite de terça-feira (13) com um trocadilho politizado. “Na Argentina não estamos vivendo emoções artificiais. A sensação é bem real e é tudo ao vivo e em cores fortes”, disse. A platéia aplaudiu emocionada e ele continuou. “Os nossos banqueiros são os hackers que destróem nosso sistema financeiro e jamais devolvem nosso dinheiro”, disparou. 

A fala-protesto do bem-humorado argentino ficou por aí. A preocupação de La Ferla era apresentar trabalhos de artistas conterrâneos que têm desenvolvido projetos na área de arte-tecnologia. Segundo La Ferla, os criadores mais voltados a este campo de expressão estão em outros países, onde recebem incentivos e equipamento para colocar em prática suas idéias. Foram apresentadas obras que têm como característica comum uma linguagem que alia estética, interatividade e a não-linearidade. O artista Marcello Macado foi um dos mais elogiados pelo palestrante. “Essas obras denotam a evolução do audiovisual”, ressaltou. 

Jose-Carlos Mariategui (Alta Tecnologia Andina/Peru) traçou um vasto panorama de produção peruana dos últimos dez anos. Segundo ele, a produção latino-americana não está deixada para trás no quadro mundial. “Nossa criação conceitual e artística já está enquadrada nos padrões globais”. Mariategui acredita que este tipo de arte sobrevive e se alimenta de “localizar o global e globalizar o local” – isto é, só se destacam bem aqueles que traduzem suas qualidades regionais em um discurso universal e vice-versa. 

Em sua apresentação Mariategui retratou a evolução de artistas do Peru por meio de obras de Francisco Mariotti (que já nos anos 60 trrabalhou com mídia digital), Roger AtasiIván Esquivel e Angie Bonino. Para checar a produção da instituição, vale a pena uma visita ao site

O mexicano Príamo Lozada apresentou a atuação da instituição Arte Alameda, enquanto o professor e músico argentino Ricardo Dal Farra (Universidad Tres de Febrero) apresentou uma complexa proposta de educação voltada à media art. A brasileira Silvia Laurentiz (ECA-USP) fez uma demonstração do Panorama de Arte e Tecnologia, que desenvolveu ao lado de Arlindo Machado.