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Divergências Sobre Temas Subversivos

Por Carlos Costa. 3 de Julho de 2004
Fotos Rubens Chiri

Divergências e insubordinações permearam os debates finais do segundo dia do simpósio. Os temas sugeridos impulsionaram discursos subversivos, e as diversidades de opiniões e posturas definiram os resultados.

À tarde, a mesa Poéticas e Perspectivas da Artemídia reuniu Anne-Marie Duguet, Christine Mello, Cláudia Giannetti, François Soulages e Ivana Bentes, com moderação de Milton Sogabe. Na abertura do diálogo, Sobage destacou a importância do tema, “assunto que perpassa todas as mesas do simpósio”.

Teórica da arte e professora da Universidade Paris I (Sorbonne), Anne-Marie escolheu a perspectiva da memória da artemídia para iniciar a conversa. “Um arquivo não é simples acumulação, e as informações não podem ser agrupadas de forma amorfa”, assim, ela discorreu sobre o projeto de uma enciclopédia virtual em DVD que coordena, exibindo trechos do trabalho. “Não é a quantidade de informações que importa. É a releitura, o novo ensaio.”

O francês François Soulages, professor da Universidade Paris 8, falou do trabalho de pesquisa que desenvolve sobre a relação entre corpo e web, que classificou como psíquica e erotizada. “A dupla natureza do desejo marca a relação do corpo com a internet. Essa relação e seus inúmeros significados e conseqüências são matéria de destaque na produção artística de artemídia.”

A diretora do Media Centre d´Art i Disseny, Mecad, de Barcelona, Cláudia Gianetti, esboçou por meio de didáticos gráficos o não-linear desenvolvimento da artemídia, desde seus primórdios, relacionando artistas, obras, marcos históricos científicos e questões estéticas. Ivana Bentes, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ, comentou sobre os caminhos da artemídia apresentando obras diversas. Ambas lembraram do trabalho percursor da artista plástica brasileira Lygia Clark (1920-1988).

Terrorismo – O tom subversivo ficou por conta do artigo de Christine Mello, da Universidade de São Paulo, USP, que comparou a produção de artemídia aos atentados terroristas. “Uma metáfora para a compreensão do mundo desmontado.” Christine mostrou as características terroristas de manifestações artísticas contemporâneas, como o trabalho de Lucas Bambozzi. “Os softwares viróticos, as invasões aos sistemas de segurança, a quebra de bloqueios institucionais. A artemídia, tudo isso ocupa zonas de risco e tensão”, definiu.

A mesa final, Inclusão Digital, Software Livre, Códigos Abertos, aprofundou questões políticas e sociais e reafirmou a necessidade de dar acesso digital aos excluídos.

Na mesa, André Lemos, Angie Bonino, Hernani Dimantas, Rejane Spitz e Susana Noguero. O moderador Guilherme Kujawski, do Itaulab, começou o debate reivindicando a manutenção da liberdade de expressão, característica maior da comunicação na web, ameaçada pelo “recrudescimento da legislação de direitos autorais”.

Em seu depoimento, Rejane Spitz, da PUC/RJ, observou que as estimativas mais positivas revelam que apenas cerca de 7% da população mundial têm acesso à web.

Coletivo e Individual na Rede

por Marco Aurélio Fiochi. 4 de Julho de 2004
fotos Rubens Chiri

Em cenário onde os usuários da internet se tornam avatares, ou seja, ganham um corpo virtual; onde as comunidades de discussão despontam como alternativa para pessoas com interesses e ideologias comuns; e onde é possível subverter o funcionamento das instituições por meio de ações globais que afrontam seu poder, surgem no ciberespaço iniciativas e experimentos artísticos que deixam o homem da era tecnológica cada vez mais individualizado. É a chamada subjetividade em rede.

No terceiro dia do simpósio internacional Emoção Art.ficial 2.0 – Divergências Tecnológicas, as experiências de interação homem-máquina foram a pauta da mesa Subjetividades em Rede, que reuniu Mariela Yeregui, Minerva Cuevas, Sara Diamond, Giselle Beiguelman, Suzette Venturelli e Mario Maciel, com mediação da artista Paula Perissinotto.

Mariela Yeregui, artista residente do Media Centre d’Art i Disseny, Mecad, em Barcelona , centrou sua apresentação na criação em novos meios, que classifica como trabalhos “na” e “para” a rede. Segundo ela, o intercâmbio entre as pessoas no espaço virtual permite criar marcos ideológicos. “A identidade do sujeito, sua postura contrária ao discurso dominante, surge dessa mobilização. Ela desperta o poder de ativismo e resistência das pessoas”, ressaltou.

A postura é compartilhada pela artista mexicana Minerva Cuevas, cuja obra Mejor Vida Corp. (1998), em exibição na mostra Emoção Art.ficial 2.0, é um libelo em favor da democracia e inclusão dos marginalizados na rede.

Trata-se de uma empresa fantasma virtual, que subverte símbolos publicitários, mostrando o “outro lado” de produtos e instituições. Um exemplo da atuação da MVC é a campanha sobre o Instituto de Informação e Estatística do México, Inegi, a qual denuncia que a instituição exclui os indigentes de seu censo. Outro serviço prestado pela “empresa” via internet são credenciais para que estudantes obtenham descontos. Códigos de barra criados pela MVC permitem que consumidores comprem produtos mais baratos nos supermercados.

Desmistificando a rede – Sara Diamond, videoartista e produtora executiva do Banff Centre, Canadá, defendeu os ambientes colaborativos de criação e desenvolvimento online. Segundo ela, é necessário desmistificar e criar comportamentos pessoais no espaço virtual. Tal processo é demonstrado no vídeo do projeto CodeZebra. A obra inicia-se com dramatizações, que são filmadas, e chegam à internet, onde a subjetividade está implícita, delineando toda a experiência.

Sara e o Banff Centre estiveram presentes na primeira edição de Emoção Art.ficial, em 2002, com a obra Talk Nice, que analisava a forma como as pessoas se expressavam na rede.

Giselle Beiguelman, artista e professora da PUC/SP, destacou a ação da “sociedade de controle” no espaço doméstico e no corpo. Como exemplo, citou os smart cards, que monitoram o que as pessoas consomem. “Passamos a ser bancos de dados ambulantes, é um cenário muito parecido ao retratado por Steven Spielberg em seu filme Minority Report, observou. “Em uma experiência ocorrida em Tijuana, México, chips foram implantados em crianças para monitorá-las, a fim de evitar seqüestros”, contou. Segundo a professora, essas ações significam que os corpos mudaram de estatuto na nova era e agora são tecnologizados, sistemas híbridos.

Suzette Venturelli, artista e professora da UnB, Brasília, e Mario Maciel, que juntos expõem em Emoção Art.ficial 2.0 a obra F69, trouxeram para o palco do simpósio o Robowww, experimento de arte robótica em desenvolvimento pela dupla. Educação a distância, com programas que simulam laboratórios, e a criação de games para celulares foram alguns dos assuntos abordados em sua apresentação.

youTAG

 

de Lucas Bambozzi (Brasil, 2008)

 

Trabalho de web art composto basicamente de um sistema especial de procura de palavras-chave associadas a vídeos e fotos na internet. Por uma busca específica, o visitante recebe em seu e-mail uma peça audiovisual remixada – e de autoria desconhecida – com base em material previamente existente e disponível na rede. Obra vencedora do Rumos Itaú Cultural Arte Cibernética em 2007.

Saiba mais sobre emergência, conceito central para alguns criadores de arte tecnológica.

Lucas Bambozzi é jornalista graduado pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Desde os anos 1980 desenvolve estudos e trabalhos sobre expressividade da linguagem audiovisual, com ênfase em meios eletrônicos. Já realizou obras em vídeo, filme, instalação, projetos interativos e internet.

Un Musée d’Artiste en Ligne (Um Museu do Artista On-Line)

de Fred Forest (França, 2004)

O artista francês nascido na Argélia foi, a partir dos anos 70, um dos primeiros a realizar trabalho multimídia pioneiro que utiliza os meios de comunicação de massa, o telefone ou o vídeo para explorar as novas formas de criação que escapam aos critérios tradicionais da arte. Ainda nos anos 70 foi um dos fundadores do Coletivo Arte Sociológica.

Fred Forest, pioneiro europeu da videoarte e da arte na internet, é doutorado pela Sorbonne. Foi premiado na 12ª Bienal Internacional de São Paulo, quando foi preso pelo regime militar. É co-fundador do movimento da arte sociológica e do grupo internacional da estética da comunicação.

Une Carte Plus Grande que le Territoire (Um Mapa Maior que o Território)

 

de Karen O´Rourke,(França, 2004)

Une Carte Plus Grande que le Territoire

Obra que explora um método de notação em que os participantes criam e visualizam online itinerários usando dados próprios ou informações disponíveis na internet. É um trabalho psicogeográfico que procura criar uma soft city, ou seja, o mapa mental de uma cidade.

Para entender a obra: o teórico russo Lev Manovich fala sobre data art, mapeamento e visualização de dados dentro da arte tecnológica.

Saiba mais sobre interatividade, conceito central para alguns criadores de arte tecnológica.

Karen O´Rourke, artista multimídia, trabalha com as telecomunicações. Suas esculturas, fotografias e softwares foram exibidos na Europa, Estados Unidos e América do Sul. É mestre de conferências em artes e comunicações na Universidade de Paris I (Panthéon-Sorbonne).

Tracajá-net

de Maria Luiza Fragoso (Brasil, 2002 a 2004)

Espécie de diário de viagem que procura redescobrir o lugar e a paisagem, a obra é um registro de deslocamentos espaciais virtuais e não virtuais, da percepção das relações geradas durante o deslocamento e da associação entre lugares e antilugares. A autora relaciona, por meio de GPS, o caminho percorrido em território brasileiro com as linhas do casco de uma tartaruga nativa.

Maria Luiza Fragoso é mestre em artes plásticas pela Universidade George Washington e professora assistente no Departamento de Artes Visuais da Universidade de Brasília. Seu trabalho tem sido mostrado em exposições no Brasil e nos Estados Unidos. Seu maior interesse atualmente é o desenvolvimento de interação entre computação gráfica, gravura e vídeo.

Plato On-Line

 

de Cícero Inácio da Silva (Brasil, 2004)

Uma falsa revista online sobre mídia arte e filosofia pós-moderna, composta totalmente de conteúdos criados em geradores automáticos de textos. O objetivo é satirizar o universo das publicações acadêmicas com textos e artigos sem sentido aparente. Você pode visitá-la nesse link.

Cícero Inácio da Silva é professor do curso de tecnologia e mídias digitais da PUC/SP e doutorando em comunicação e semiótica nessa universidade. É um dos especialistas brasileiros em linguagem de hipermídia, criação e implementação de sites.

10 Dencies São Paulo e 10 Lavoro Immateriale

 

de Knowbotic Research (Alemanha – Áustria, 1998-1999)

10_Dencies São Paulo and 10_Lavoro ImmaterialeO projeto compreende instalações gêmeas: uma com o projeto de São Paulo (10_Dencies São Paulo, 1998) e outra com o projeto de Veneza (10_Lavoro Immateriale, 1999). Explora as possibilidades de intervenção urbana e interferência em ambientes complexos, criando uma colagem topológica que mistura bancos de dados e estatísticas urbanas com a imaginação dos cidadãos. Trata-se de um estudo sobre as megalópoles feito com base na cartografia urbana elaborada coletivamente por especialistas e pela população.

Conheça também Une Carte Plus Grande, obra de Karen O’Rourke que procura criar mapas mentais de uma cidade.

Knowbotic Research propõe questionamento sobre as forças e os sistemas tecnológicos que se justapõem, se anulam e se relacionam para construir o território informacional das grandes aglomerações urbanas. Tóquio, São Paulo e Belgrado, habitadas por milhões de pessoas, foram as cidades escolhidas. Em cada uma delas, o grupo desenvolve o projeto com grupos de arquitetos, tendo como território de trabalho a internet. A primeira etapa, Tóquio, foi realizada em 1997/1998 e ganhou o prêmio ARS Electronica de arte na internet.

Por la Vida y por la Paz (1987), PAZ=PAN (2001), Spams Trashes (2002)

 

de Clemente Padin (Uruguai)

Padin, homenageado na exposição, é um dos pioneiros que introduziram no campo da arte uma forma diferenciada ou divergente de lidar com as novas tecnologias. Seus três trabalhos apresentados exploram temas como o pacifismo, e documentam formas inusitadas de manifestações políticas, tanto nas ruas como na rede mundial de computadores.

Conheça outras obras que usam a arte tecnológica como forma de manifestação urbana e resistência social.

Clemente Padin, artista uruguaio vinculado a uma vertente explicitamente política, iniciou sua carreira nos anos 60. Participou da direção das revistas de vanguarda Los Huevos del Plata e Ovum 10. É autor de vários livros e sua atuação foi muito significativa na rede internacional de arte postal. Em decorrência de sua atividade artística, ficou preso entre 1977 e 1979, durante a ditadura militar uruguaia.

Mejor Vida Corp. (MVC)

 

de Minerva Cuevas (México, 2003)

Mejor Vida Corp.Uma crítica à sociedade de consumo, ao clientelismo político e ao consumismo desenfreado das sociedades capitalistas. MVC é uma empresa fantasma com sede na Torre Latinoamericana, conhecido arranha-céu no centro da Cidade do México. Sua principal estratégia é quebrar, geralmente por meios fraudulentos, as principais regras do capitalismo. Assim, por exemplo, a empresa vende em seu website etiquetas de códigos de barra com preços mais baixos de produtos pré-selecionados e credenciais falsas que permitem a compra de passagens aéreas mais baratas.

Conheça também Problemarket, obra de Davide Grassi e Igor Stromajer que satiriza o mundo das corporações globalmente conectadas.

Minerva Cuevas, artista mexicana, desenvolve trabalhos sociais e políticos que atacam as grandes corporações por meio de sabotagem cultural.