por Ana de Fátima Sousa. 3 de julho de 2004
Fotos Rubens Chiri
A manhã do sábado foi o momento de reverenciar pioneirismos na história da artemídia e discutir as funções social e política desse tipo de produção.
A primeira mesa, As Redes e os Novos Espaços de Intervenção, trouxe nomes que se confundem com a cronologia da produção de arte tecnológica. Clemente Padin (Uruguai), Paulo Bruscky (Brasil), Fred Forest (França) e Gilbertto Prado (Brasil) remeteram a platéia ao século passado, à década de 1960, quando esses e outros artistas já faziam uso dos correios para criar obras inovadoras.
Foi nos idos anos rebeldes que nasceu a mail art. Impregnada do espírito sessentista/setentista, a idéia que motivava os então jovens criadores era o desejo de apenas comunicar, o que era transgressor para a época, especialmente em cenários de ditadura. Clemente Padin abriu a discussão e destacou como essa manifestação trazia, e traz, a inter-relação humana. “Essas ferramentas que começavam a surgir permitiam ampliação de alcance, diminuição de fronteiras.” Com ares poéticos, Padin disse que o grande valor da arte via redes é ser “uma arte que não se compra, o que interessa é a comunicação”.
Atitude de transgressão – “A arte postal era a saída mais viável para a arte antiburguesa, anticomercial”, explicou o pernambucano Paulo Bruscky – que teve importante papel no Brasil tanto para arte postal como para videoarte e arte xerográfica. Segundo ele, essa atitude de ir contra o que era esperado no mercado garantiu que a arte retomasse sua função de comunicar.
Bruscky relatou como os “artistas-correio” sofreram com os regimes de censura na América Latina. Em 1975 ele foi parar na prisão. “Naquela época não se sabia quem estava prendendo você e nem para onde se estava sendo levado. Mas como o governo federal mais tarde abriu processo contra mim, creio que se tratava da Polícia Federal.” Outro que conheceu a prisão brasileira foi Fred Forest. Em 1973, quando participava da Bienal Internacional de São Paulo, fez uma performance em pleno Viaduto do Chá, em que as pessoas erguiam cartazes em branco. Os agentes do Dops acharam aquilo suspeitíssimo e prenderam o francês por precaução. Forest ficou detido por algumas horas até que Walter Zanini, da organização da Bienal, conseguiu sua liberação. Clemente Padin também foi preso em seu país e teve sua correspondência “interditada” por vários anos.
Paulo Bruscky descreveu ainda que obras coletivas e globais já aconteciam na antiga forma de correspondência: “correntes” distribuiam uma obra em construção e cada membro da lista dava sua contribuição. Ele lançou uma fala que marcou a discussão de toda a manhã do simpósio. “A arte-correspondência foi a primeira expressão a substituir os museus pelos arquivos pessoais dos artistas.”
Em sua explanação, Gilbertto Prado uniu cronologia e reverência aos pioneiros das novas formas de expressão artística. Reforçou a característica contestatória que congregava esses artistas, citou Roy Ascott como pai da arte telemática, destacou a importância da obra de Fred Forest, Antoni Muntadas, Bruscky e Padin, e fez uma homenagem a Walter Zanini. “Como articulador e crítico, Zanini exerceu papel fundamental e corajoso, fez com que as portas fossem abertas a esses artistas.”
A mesa foi encerrada com Fred Forest, que agradeceu a iniciativa do Emoção Art.ficial de trazer os “anciãos” da artemídia. E destacou a função de sua geração, justamente a de criar uma ação a distância, uma arte de colaboração, de interatividade. “Criamos um modelo que valorizava nossa relação com o mundo. Enquanto a arte tradicional tentava representar e/ou compreender o mundo, essa nova forma tentou agir sobre o mundo, interferir nele.” O artista desse novo modelo se apropria dos meios e pode sim ter poder, já que tem certa autonomia do sistema de arte. E desafiou a platéia: “Nós já fizemos o nosso papel. A vocês cabe encontrar um outro modelo”.
Politização – A segunda mesa tinha a missão de discutir formas de politizar o debate sobre arte e tecnologia. O catalão Antoni Muntadas foi econômico nas palavras e, objetivo, disse que “se antes a cultura estava presa ao Estado, hoje ela está ligada a instituições que representam grandes corporações e interesses econômicos”. Na seqüência apresentou um slide-show que mistura poder hegemônico, fusão de culturas e uma nítida crítica à banalização.
O alemão Oliver Ressler mostrou a própria forma de politizar. Sua obra artística questiona sempre temas como racismo, migração, engenharia genética.
O argentino Jorge La Ferla, que tem tradição de falas calorosas, abriu dizendo que sempre há perda de discurso político: “Isso não muda com o tempo”. Para ele, perde-se muito tempo falando do novo, vanguarda, e isso não tem nenhuma relevância. “O importante é o que se diz, por que se diz.” La Ferla pegou o gancho de Muntadas, mas amenizou a fala do colega: “É verdade que as grandes instituições estão ligadas a empresas ou grupos poderosos, mas também é fato que são elas que permitem debates como este”. Em sua apresentação, mostrou um histórico das mais importantes instituições de fomento à artemídia, e o ZKM, por exemplo, já foi fabricante de armas de guerra.
La Ferla destacou a evolução da produção brasileira e citou artistas como Rejane Cantoni, Daniela Kutschat, Tânia Fraga como passionais, e que impulsionam de forma extremamente criativa o movimento. A produção teórica de Lúcia Santaella e Arlindo Machado também foi citada como de grande relevância.
A cubana Coco Fusco começou mostrando preocupação com o título da mesa Arte e Tecnologia: Como Politizar o Debate?: “Faz-me pensar: o debate já existe? É só um debate? Esse debate não é politizado?” e continuou “se o mero acesso à tecnologia já inclui ou exclui indivíduos, todo uso da tecnologia é político”. Com uma produção focada no feminismo tecnológico, Coco apresentou trechos de seu mais recente vídeo.
O italiano Davide Grassi, residente na Eslovênia, quebrou a atmosfera séria da mesa, apresentando sua “empresa”, a Problemarket.com – Problem Stock Exchange, que permite a troca de problemas de toda e qualquer proporção e por tempo ilimitado. Sua apresentação com ares de entretenimento foi fechada com a entrega de um certificado de troca de problemas com o presidente Lula – que teria enviado uma solicitação de troca para se livrar da questão dos transgênicos. Com o presidente ausente, a representação nacional ficou a cargo do moderador da mesa, Lucas Bambozzi.
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Antoni Muntadas
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Fred Forest
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Simpósio Emoção Art.ficial 3/7/04 – mesa 1
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Simpósio Emoção Art.ficial 3/7/04 – mesa 1
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Clemente Padin, Maria Luiza Fragoso, Paulo Bruscky, Gilbertto Prado e Fred Forest
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Simpósio Emoção Art.ficial 2.0 3/7/04 – mesa 2
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Simpósio Emoção Art.ficial 2.0 3/7/04 – mesa 2
Tags: Argentina, arte postal, Brasil, Eslovênia, França, mail art, Uruguai
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