por Kiel Pimenta e Luiza Fagá, 22 de Julho de 2006
Otto Rössler é uma figura estranha. Estranhamente carismática. Uma mistura de cientista maluco, profeta do apocalipse e disseminador da bondade. “Benevolência é o oposto de crueldade”, ele diz. “É o que o mundo precisa”. Rössler dividiu sua segunda participação no Simpósio Emoção Art.ficial 3.0 com o artista tecnológico Bill Seaman. Seaman é artista e Rössler… Endofísico. Endofísica é a ciência de dentro, oposta à exofísica. Ficou claro?
Seaman iniciou sua palestra com uma pergunta: somos computadores eletroquímicos? À qual ele mesmo respondeu que sim, somos um biocomputador. Para ele, um computador consciente é aquele que pode ser criativo, ter conhecimentos, emoções sintéticas etc. Para construí-lo, segundo ele, é preciso “observar a funcionalidade de um sistema e montar um sistema com e mesma funcionalidade”. Seaman falou sobre o paradigma da nova senciência e depois se centrou em seu conceito dos fluxos de padrões (pattern flows), que orienta sua obra exposta em Emoção Art.ficial 3.0: The Thoughtbody Environment Interface. Mostrou uma imagem que, a princípio, explicaria sua teoria. “Essa imagem só o Bill entende”, brincou Rössler.
Chegou a vez de o endofísico falar. “Vocês preferem que eu desenhe?” Preferimos. Em um retroprojetor, o senhor de cabelos brancos e gestos trêmulos desenhou imagens tortas, com a mesma imprecisão de suas palavras. Mas, como ele mesmo disse no encontro anterior, “a endofísica é um assalto à objetividade e reforça a objetividade”. Ele vai nos levar a algum lugar.
O assalto
Rössler começou a aula dizendo que a inteligência artificial é um “território perigoso”. Mas, calma, a endofísica é um assalto à objetividade. Na natureza “tudo flui para baixo, para a morte. Mas nesse caminho, pequenas coisas acontecem.” Desenhou uma seta diagonal para baixo e, na metade do caminho entre o topo e a base, uma espiral. Para explicar, o cientista trocou o vocabulário difícil por palavras doces. Seria como a água, ao escorregar pelas pedras de uma cachoeira. Em algumas partes da trajetória ela forma um pequeno redemoinho. “Se você der uma chance, ela pode produzir coisas lindas e até vida.” E, sempre que houver possibilidade, a vida vai se reproduzir. “É tão forte como um jovem para quem o mundo está se abrindo.”
Outra forma que a energia encontra de fugir da morte é ir de encontro ao ponto ômega. Para ilustrá-lo, Rössler desenhou um seta apontando para cima. O ponto ômega, conceito desenvolvido pelo filósofo Teilhard de Chardin, mora em seu topo. Meta infinita, grau máximo de aperfeiçoamento e evolução. “Onde toda a energia criativa se concentra.” Segundo o endofísico, é para onde a energia excedente conflui.
O reforço
Cientista-profeta, Rössler disse que, se a evolução for bem-sucedida durante tempo infinito, o ponto ômega será naturalmente atingido. Mas essa ponte, entre o estágio atual e o último estágio da evolução, também pode ser construída pela ciência.
Segundo Rössler, a principal diferença entre a explicação física da evolução e a teoria de Darwin é que a primeira toma a evolução por um processo inteligente, que pode ser previsto por meio de algoritmos e, portanto, reconstruído.
Se a ciência pode prever e reproduzir a evolução de um ser e levar essa evolução a seu ponto máximo, isso poderia implicar termos “o cosmo inteiro se desenvolvendo com a finalidade de um ser onipotente, onisciente e benevolente.” A endofísica reforça a objetividade. Chegamos à benevolência e ao perigo a que Rössler se referia.
Tags: Alemanha, endofísica, evolução, inteligência artificial
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