por Fabrízio Penteado, 4 de Julho de 2004
fotos Rubens Chiri
Utilizar a arte e seus aspectos tecnológicos como forma de manifestação urbana foi o tema da mesa-redonda realizada no domingo à noite, A Cidade como Interface. A pauta elevou a arte contemporânea a um patamar distante da mera intervenção poética e urbana, priorizando as questões sociais.
Nas urbes modernas, principalmente em metrópoles como São Paulo, muitas vezes o ser humano se torna invisível em relação ao próximo, a si mesmo e ao meio que o cerca. Com questões definidas, artistas sentiram-se livres para explorar o espaço urbano e alterá-lo de forma artística, mas também como pano de fundo para um evento social.
Mediada por Marcelo Tramontano, a palestra contou com a presença de Simone Michelin, Michael Rakowitz, Nelson Brissac Peixoto e Fabio Duarte.
A artista plástica Simone Michelin detalhou sua obra, que pode ser apreciada no lado externo do edifício, como uma forma de interface para quem a vê, transformando o espectador em participante. Batizada de ADA – Anarquitetura do Afeto, a obra representa a disparidade com que aceitamos determinadas vigilâncias, questionando o que podemos suportar.
Fabio Duarte exemplificou com o objetivo principal de 10 Dencies São Paulo/ 10 Lavoro Immateriale, obra do grupo Knowbotic Research. Através de dois monitores, palavras-chaves são dispostas numa nuvem, aparentemente nebulosa, que reagrupadas de acordo com o espectador fornecem uma gama de informações entendida de forma diferente por cada um. Pela interatividade com o programa, a obra deixa de ser estática, sendo sempre mutável e não-linear. O caos aparente pode ser entendido como o próprio mundo dinâmico em que vivemos.
Com uma explícita preocupação social, Michael Rakowitz usou moradores de rua como seu principal outdoor. Sua obra é uma espécie de bolsa térmica adaptada aos exaustores (ventiladores) de edifícios das grandes cidades que serviria de morada para sem-teto. Inflado, além de preservar calor e conseqüentemente a vida de seu ocupante, o “iglu de ar” é uma intervenção urbana que os passantes, atraídos pela curiosidade, descobrem tratar-se de uma moradia. Do ponto de vista do artista, mais importante que proporcionar calor ao ocupante, a obra torna-o visível novamente, atraindo a atenção dos pedestres.
Tecnologia digital como interação entre o meio e a cidade foi um dos pontos levantados por Nelson Brissac que citou a obra do grupo holandês AVL: pequenas moradias de fibra de vidro para moradores de rua. Além do conceito de fornecer casas para desabrigados, o grupo holandês sugeriu que as obras fossem utilizadas por seus moradores e administradas por eles como forma de inclusão social. Barracas de doces, pontos de jogo do bicho e pequenos bares foram algumas das soluções encontradas pelos sem-teto para preservar e utilizar o espaço, tornando o ambiente habitável, conseqüentemente, digno.
Saiba mais sobre obras feitas na fronteira entre arte e resistência social, nas obras de Fran Ilich, Cristina Costa e José-Carlos Mariategui.
- Simpósio Emoção Art.ficial 2.0 5/7/04 – mesa 7
- Michael Rakowitz
- Nelson Brissac Peixoto






