Arte Cibernética Ontem e Hoje

por Edson Cruz e Kiel Pimenta, 20 de Julho de 2006

Presente e passado da arte cibernética se encontraram na segunda mesa do Simpósio Emoção Art.ficial 3.0. A escritora e curadora Jasia Reichardt e o artista performático Golan Levin fizeram explanações que, casualmente, se casaram perfeitamente.

Jasia se centrou no passado. Ela foi diretora-assistente do Institute of Contemporary Arts (ICA), de Londres, no período de 1963 a 1971, e ficou famosa por ter organizado, em 1968, a Cybernetic Serendipity, uma das primeiras exposições a explorar as relações entre arte e tecnologia, antes mesmo do aparecimento dos computadores, tais como os conhecemos hoje. Iniciou sua apresentação mostrando imagens de obras precursoras, como colagens dos anos 20 que já traziam a temática da relação máquina-homem, até chegar à famosa exposição de 1968.

Serendipity significa a possibilidade de fazer uma descoberta casual e feliz, e era exatamente essa a proposta da exposição: reunir pessoas que não se conheciam e nem precisavam ser artistas, contanto que fossem capazes de criar arte com as novas ferramentas tecnológicas. Além de fotos das obras e alguns vídeos apresentados na mostra, Jasia trouxe à tona algumas curiosidades: o cartaz foi datilografado e não houve catálogo. Mas o detalhe mais penoso é que não há registro filmado da exposição, nem das 16 palestras realizadas.

Levin falou primeiro, mas trouxe informações do presente que complementaram a fala de Jasia de forma “serendipitosa”. Conceituado artista de novas mídias, mostrou alguns projetos que fazem uma síntese da sua proposta de estudar a relação do ser humano com a máquina. Citando como fonte inspiradora um dos precursores da arte eletrônica, Myron Krueger, que dizia que “a resposta é o meio”, e fazendo um contraponto com as teorias de Marshall McLuhan, Levin afirmou que o que interessa a ele é o diálogo não-verbal entre homem e máquina e a visualização dos processos de comunicação. “Meu trabalho é erroneamente associado a som e imagem, mas eu estou interessado no gesto”, ressaltou. “A resposta [a maneira como os sinais são transmitidos] é o foco central de meu trabalho”, completou.

Para isso ele criou o software Audiovisual Environment Suite (ou “suíte de ambiente audiovisual”), que permite produzir sons a partir de animações abstratas desenhadas em tempo real, num computador.

Entre os projetos mostrados, um dos mais interessantes foi A Telesimphony, de 2001, em que ele reuniu num teatro 200 pessoas que tinham o número de seus celulares registrado num banco de dados e recebiam um novo toque. Durante o evento, a produção ligava para os celulares, que reproduziam os novos sons um após o outro, formando uma verdadeira sinfonia. Outro projeto mostrado foi Re-Mark, de 2002, em que a voz do espectador reproduzida num microfone e as sombras dele projetadas numa tela acionavam uma resposta em forma de sons e palavras. Uma versão mais sofisticada dessa idéia pode ser apreciada na exposição Emoção Art.ficial 3.0: a obra Messa di Voce, de 2003, realizada em parceria com Zachary Lieberman.

No debate final, questionada sobre o que faria daqui para frente, Jasia citou Apollinaire, que já havia mencionado a realidade virtual muito antes de ela acontecer, para justificar que continua interessada nas novas tecnologias e em suas possibilidades. E foi irônica: “Hoje, busca-se o passado. Portanto, eu estou ocupada”.